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Por que o Bitcoin tem oferta limitada

O limite de 21 milhões de bitcoins não está escrito em um contrato nem depende de um banco central. Ele é consequência de uma regra de emissão no código, verificada por cada computador da rede.

Editor responsável:
Daniel Ferreira

Publicado em · 7 min de leitura

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Em três pontos

  • Cada bloco cria bitcoins novos, e esse valor cai pela metade a cada 210 mil blocos; somando todas as etapas, o total converge para pouco menos de 21 milhões.
  • Quem garante a regra são os nós da rede: um bloco que pague ao minerador mais do que o permitido é rejeitado.
  • A regra pode, em tese, ser alterada, mas só com adesão ampla dos usuários; moedas perdidas e a dependência futura de taxas são pontos de atenção.

Muita gente ouve que “só vão existir 21 milhões de bitcoins” e trata a frase como um slogan. Ela é, na verdade, o resultado de uma conta. O sistema define quantas moedas novas cada bloco pode criar e como esse número diminui com o tempo. Somando tudo, chega-se a um total máximo.

Este texto explica de onde vem esse limite, como a emissão funciona, quem garante a regra e o que o limite não garante. Se você ainda não conhece o básico da rede, comece por o que é Bitcoin.

Como surgem bitcoins novos

No Bitcoin não existe uma autoridade que “imprime” moeda. O whitepaper de Satoshi Nakamoto descreve a solução: por convenção, a primeira transação de cada bloco é especial e cria moedas novas para quem produziu o bloco (whitepaper do Bitcoin, seção 6). Essa transação é chamada de coinbase (não confundir com a empresa de mesmo nome).

O texto original compara o processo a garimpeiros que gastam recursos para colocar ouro em circulação. No caso do Bitcoin, o recurso gasto é processamento e eletricidade. É por isso que quem produz blocos é chamado de minerador. O funcionamento da mineração está detalhado em como funciona a mineração de Bitcoin.

Além das moedas novas, o minerador recebe as taxas pagas pelas transações que incluiu no bloco. Essa soma (moedas novas mais taxas) forma a recompensa do bloco. A parte que vem de moedas novas é chamada de subsídio.

A regra de emissão no código

O subsídio não é decidido a cada bloco. Ele é calculado por uma função do Bitcoin Core, o software de referência da rede, chamada GetBlockSubsidy (Bitcoin Core, validation.cpp). A lógica é curta:

  1. Divide a altura do bloco (sua posição na cadeia) pelo intervalo de 210.000 blocos. O resultado é o número de “halvings” já ocorridos.
  2. Parte de 50 bitcoins e corta esse valor pela metade uma vez para cada halving.
  3. Se o número de halvings chegar a 64, devolve zero.

O intervalo de 210.000 blocos é um parâmetro da rede principal, definido como nSubsidyHalvingInterval (Bitcoin Core, chainparams.cpp). O mesmo arquivo fixa o intervalo-alvo entre blocos em 10 minutos. Um comentário no código resume: o subsídio cai pela metade a cada 210.000 blocos, o que ocorre “aproximadamente a cada 4 anos”.

A conta é feita em satoshis, a menor unidade do Bitcoin. Um bitcoin tem 100 milhões de satoshis, segundo a constante COIN do código (Bitcoin Core, amount.h). Trabalhar com números inteiros evita erros de arredondamento.

Por que a soma dá quase 21 milhões

Veja as primeiras etapas, cada uma com 210.000 blocos (Bitcoin Wiki, “Controlled supply”):

Etapa Bloco inicial Subsídio por bloco Moedas criadas na etapa
1 0 50 BTC 10.500.000
2 210.000 25 BTC 5.250.000
3 420.000 12,5 BTC 2.625.000
4 630.000 6,25 BTC 1.312.500
5 840.000 3,125 BTC 656.250

Cada etapa emite metade da anterior. É uma progressão geométrica: 10,5 milhões + 5,25 milhões + 2,625 milhões e assim por diante. Uma soma desse tipo nunca passa do dobro do primeiro termo, ou seja, 21 milhões.

Na prática, o total fica um pouco abaixo. Como o subsídio é medido em satoshis inteiros, as frações são descartadas a cada corte. Pela conta da Bitcoin Wiki, o máximo teórico é de 20.999.999,9769 bitcoins. A redação refez o cálculo a partir da regra do código e chegou ao mesmo número. O subsídio chega a 1 satoshi por bloco na etapa 33 e a zero na etapa 34, a partir do bloco 6.930.000.

A data exata em que isso acontece depende do ritmo real dos blocos, que varia. A mesma página estima que a emissão termine por volta de 2140, e ressalva que a previsão é difícil.

Onde a emissão está hoje

O quarto halving ocorreu no bloco 840.000, minerado em 20 de abril de 2024, segundo os dados do bloco no explorador mempool.space (bloco 840.000). Desde então, cada bloco cria 3,125 BTC.

Em 8 de outubro de 2026, a cadeia estava no bloco 970.493 (mempool.space, altura atual). Pela regra de emissão, isso corresponde a cerca de 20,1 milhões de bitcoins já criados, aproximadamente 95,7% do máximo. Esse é um cálculo da redação a partir da altura do bloco; ele inclui moedas que, como você verá adiante, nunca poderão ser gastas.

O próximo corte está programado para o bloco 1.050.000. Com blocos a cada 10 minutos, isso daria cerca de 550 dias a partir de outubro de 2026, ou seja, por volta de 2028. É uma estimativa: a data real depende do ritmo dos blocos. Os efeitos do halving são tema de um texto próprio: halving do Bitcoin.

Quem garante o limite

O limite não depende de uma empresa ou de uma promessa. Ele é imposto por cada nó, o computador que roda o software do Bitcoin e verifica os blocos por conta própria.

No Bitcoin Core, ao validar um bloco, o nó calcula quanto o minerador pode receber: as taxas das transações do bloco mais o subsídio daquela altura. Se a transação coinbase pagar mais do que isso, o bloco é marcado como inválido com o motivo bad-cb-amount, “coinbase pays too much” (Bitcoin Core, validation.cpp). Um minerador que tentasse criar moedas extras teria seu bloco recusado pelos nós que seguem essa regra, e perderia o trabalho gasto.

Existe também uma constante chamada MAX_MONEY, igual a 21 milhões de bitcoins. O próprio comentário no código adverte que ela não é a oferta total, mas uma checagem de sanidade: nenhum valor acima dela é aceito (Bitcoin Core, amount.h). Quem limita a emissão é a regra do subsídio.

Um detalhe técnico corrigido em 2014

Na versão original, o corte pela metade era feito com uma operação de deslocamento de bits. Depois de 64 halvings, o comportamento dessa operação em C++ ficaria indefinido, e o subsídio poderia, em tese, voltar a 50 BTC por volta do ano 2214. A BIP 42, uma proposta de melhoria do Bitcoin de 2014 assinada por Pieter Wuille, propôs fixar o subsídio em zero a partir daí (BIP 42). O documento tem tom bem-humorado, mas a correção está em vigor: é a linha que devolve zero quando os halvings chegam a 64.

O limite pode mudar?

Tecnicamente, o código pode ser alterado, como qualquer software. A questão é se a mudança seria aceita. A página de perguntas frequentes do bitcoin.org afirma que o protocolo não pode ser modificado “sem a cooperação de quase todos os seus usuários”, e que mudanças só valem se usuários, mineradores e operadores de nós as adotarem voluntariamente (Bitcoin.org, FAQ).

Na prática, um grupo que passasse a aceitar mais emissão criaria uma rede separada, com regras diferentes. Os nós que mantêm a regra original continuariam rejeitando esses blocos. Isso não é uma garantia matemática de que nada mudará: é uma barreira social e técnica alta.

O que o limite não garante

O teto de emissão é uma regra técnica. Ele não diz nada sobre valor futuro, e é importante separar as duas coisas.

  • Oferta limitada não garante preço. O preço depende de demanda, e demanda pode cair. Criptoativos podem ter quedas fortes e prolongadas, e é possível perder todo o valor aplicado.
  • Moedas perdidas continuam contadas. Bitcoins cujas chaves privadas se perderam ficam parados para sempre, segundo a FAQ do bitcoin.org. Elas entram no total emitido, mas não circulam. Ninguém sabe ao certo quantas são.
  • Algumas moedas nunca puderam ser gastas. Os 50 BTC do primeiro bloco da rede (o bloco gênese) não podem ser gastos. A Bitcoin Wiki registra também casos de mineradores que receberam menos do que podiam e moedas destruídas de propósito. Por isso a oferta efetiva fica abaixo do máximo teórico.
  • Escassez não é estabilidade. A FAQ do bitcoin.org diz que o Bitcoin “não foi projetado para ser uma moeda deflacionária”. Ter oferta previsível não torna o preço previsível.

A questão das taxas

Há ainda um ponto de longo prazo. O whitepaper prevê que, depois que a quantidade predeterminada de moedas estiver em circulação, o incentivo aos mineradores pode passar a vir inteiramente das taxas de transação.

Hoje, as taxas ainda são uma parte pequena da recompensa. Nos 1.008 blocos entre os blocos 969.480 e 970.487 (cerca de uma semana, até 8 de outubro de 2026), as taxas somaram cerca de 19,3 BTC, contra aproximadamente 3.169 BTC de recompensa total, ou cerca de 0,6% (mempool.space, estatísticas de recompensa). Esse percentual varia muito com a demanda por espaço nos blocos.

Se as taxas serão suficientes para remunerar a segurança da rede quando o subsídio ficar muito pequeno é uma questão em aberto. Na avaliação da redação, quem afirma ter a resposta definitiva para isso está especulando.

O que levar deste texto

  • O limite de quase 21 milhões não é uma promessa: é a soma de uma emissão que começa em 50 BTC por bloco e cai pela metade a cada 210.000 blocos.
  • O máximo teórico é de 20.999.999,9769 BTC, e a emissão deve terminar por volta de 2140. Em outubro de 2026, cerca de 95,7% já tinham sido criados.
  • Cada nó da rede rejeita blocos que paguem mais do que o permitido. Mudar a regra exigiria adesão ampla de quem usa e opera a rede.
  • Oferta limitada não garante preço, estabilidade nem retorno. Moedas perdidas, a futura dependência de taxas e a volatilidade são riscos reais.

Fontes

  1. Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System, Satoshi Nakamoto (bitcoin.org). Acesso em 8 de outubro de 2026
  2. Bitcoin Core: src/validation.cpp (GetBlockSubsidy e checagem bad-cb-amount), Bitcoin Core. Acesso em 8 de outubro de 2026
  3. Bitcoin Core: src/consensus/amount.h (COIN e MAX_MONEY), Bitcoin Core. Acesso em 8 de outubro de 2026
  4. Bitcoin Core: src/kernel/chainparams.cpp (parâmetros da rede principal), Bitcoin Core. Acesso em 8 de outubro de 2026
  5. Controlled supply, Bitcoin Wiki. Acesso em 8 de outubro de 2026
  6. Frequently Asked Questions, Bitcoin.org. Acesso em 8 de outubro de 2026
  7. BIP 42: A finite monetary supply for Bitcoin, Bitcoin Improvement Proposals (Pieter Wuille). Publicado em 1 de abril de 2014 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  8. Mempool.space API: bloco 840.000, mempool.space. Acesso em 8 de outubro de 2026
  9. Mempool.space API: altura do bloco mais recente, mempool.space. Acesso em 8 de outubro de 2026
  10. Mempool.space API: estatísticas de recompensa dos últimos 1.008 blocos (blocos 969.480 a 970.487), mempool.space. Acesso em 8 de outubro de 2026

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Este artigo é educativo e informativo. Não é recomendação personalizada de compra, venda ou manutenção de nenhum ativo. Criptoativos e ativos tokenizados têm riscos, inclusive de perda total; as regras mudam de um país para outro.

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