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Cold wallet ou hot wallet: segurança de criptoativos

A diferença entre hot wallet e cold wallet está em um detalhe: se a chave privada fica ou não em um aparelho conectado à internet. Esse detalhe muda quais ataques funcionam contra você, mas não elimina todos.

Editor responsável:
Daniel Ferreira

Publicado em · 8 min de leitura

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Em três pontos

  • Hot wallet mantém a chave em aparelho conectado, o que facilita o uso e expõe a chave a malware e invasões; cold wallet assina transações fora da rede e reduz esse risco.
  • Cold wallet não protege contra tudo: você ainda pode aprovar uma transação maliciosa, expor a frase de recuperação, comprar um aparelho adulterado ou perder o acesso.
  • Uma divisão por finalidade, com pouco valor na carteira quente e a reserva em ambiente offline, é a lógica descrita pelo Bitcoin.org; no Brasil, custodiantes devem documentar como distribuem os ativos entre carteiras quentes, mornas e frias.

Os termos vêm do inglês: hot wallet (carteira quente) e cold wallet (carteira fria). Eles descrevem uma única coisa: a exposição da chave privada à internet. A chave privada é o segredo que autoriza movimentar os fundos, e quem a obtém pode levar tudo.

Este texto compara os dois modelos pelo que importa para a segurança: quais ataques cada um bloqueia, quais continuam possíveis e quais riscos aparecem justamente quando você troca um pelo outro. Se ainda não está claro quem guarda a chave na sua carteira, você ou uma empresa, comece por carteiras custodiais e não custodiais.

As definições oficiais

A regulação brasileira traz definições objetivas. A Resolução BCB nº 520, de 10 de novembro de 2025, em vigor desde 2 de fevereiro de 2026, define no art. 2º:

  • Carteira fria: a carteira que “não está constantemente conectada à rede mundial de computadores (internet)”.
  • Carteira quente: a carteira “mantida constantemente conectada” à internet.
  • Carteira morna: uma categoria intermediária entre as duas.

A norma se dirige às empresas que prestam serviços com ativos virtuais, mas as definições valem como vocabulário para qualquer pessoa. Repare que o critério não é o formato do aparelho, e sim a conexão.

Por que a conexão importa

Toda transação precisa ser assinada com a chave privada. A pergunta de segurança é: onde essa assinatura acontece?

A guia para desenvolvedores do Bitcoin descreve as carteiras completas, que fazem tudo em um único programa, e aponta sua principal desvantagem: elas guardam as chaves privadas em um aparelho conectado à internet. A guia acrescenta que criptografar o arquivo da carteira ajuda, mas não protege contra um ataque feito para capturar a senha de criptografia (Developer Guide: Wallets).

O relatório do NIST sobre blockchain explica por que isso é grave: se a chave é roubada, o atacante tem acesso total aos ativos, e a transferência feita por ele em geral não pode ser desfeita (NISTIR 8202, seção 3.4.1).

Hot wallet: conveniência com exposição

São carteiras quentes os aplicativos de celular, os programas de computador, as extensões de navegador e as carteiras web, tipos listados pela própria página de carteiras do Ethereum (ethereum.org, Ethereum wallets).

O que elas oferecem:

  • Uso imediato. Pagar, receber e interagir com aplicativos descentralizados leva segundos.
  • Custo zero ou baixo. A maioria é gratuita.
  • Configuração simples. Basta instalar e anotar a frase de recuperação.

O que as expõe:

  • Malware. Um programa malicioso no mesmo aparelho pode tentar ler a chave ou capturar o que você digita. O Bitcoin.org lembra que a senha da carteira não protege contra programas que registram o teclado (Securing your wallet).
  • Phishing. Um site falso pode pedir a frase de recuperação ou induzir uma assinatura. A CISA, agência de cibersegurança dos Estados Unidos, define phishing como ataques que usam e-mail ou sites maliciosos para obter informações fingindo ser uma organização confiável (CISA). As técnicas mais comuns contra carteiras estão em phishing em carteiras digitais.
  • Backup na nuvem. Uma foto ou um arquivo da frase sincronizado com a nuvem leva a chave para fora do aparelho. O guia de segurança do Ethereum desaconselha capturas de tela da frase justamente por isso (ethereum.org, Ethereum security).

O Bitcoin.org compara a carteira no celular ou no computador a dinheiro no bolso: deve guardar só uma quantia pequena para uso cotidiano (Securing your wallet).

Cold wallet: a chave longe da rede

Na carteira fria, a chave é gerada e usada em um ambiente sem conexão. Há duas formas principais.

Computador offline. O Bitcoin.org descreve a assinatura offline: um computador desconectado guarda a carteira e assina as transações; um computador conectado apenas monta transações não assinadas e transmite as que já voltaram assinadas (Securing your wallet). Os dados passam de um para outro por mídia removível. Funciona, mas exige disciplina e algum conhecimento técnico.

Carteira de hardware. É um aparelho dedicado a uma só tarefa: guardar a chave e assinar. A guia do Bitcoin a descreve como um dispositivo que roda uma carteira “somente de assinatura” e conversa com o computador ou o celular para trocar os dados da transação (Developer Guide: Wallets). A chave não sai do aparelho; o computador conectado recebe apenas a transação já assinada. O Bitcoin.org avalia que esse tipo de carteira oferece o melhor equilíbrio entre segurança muito alta e facilidade de uso (Securing your wallet).

O ganho é concreto: um malware no seu computador não consegue ler uma chave que não está nele. O custo também: o aparelho é pago, cada operação leva mais tempo e você passa a ter um objeto físico para guardar.

O que a cold wallet não resolve

Aqui está o erro mais comum de interpretação. Carteira fria protege a chave contra leitura remota. Ela não protege contra tudo.

Você ainda assina o que aprova. Se um site malicioso montar uma transação que envia seus fundos para o golpista, ou uma permissão de gasto ilimitada, e você confirmar no aparelho, a assinatura é válida. O guia de segurança do Ethereum recomenda ler a transação antes de assinar, conferir o endereço e não conceder limites de gasto ilimitados a contratos (ethereum.org, Ethereum security). Confira na tela do próprio aparelho, não só na do computador.

A frase de recuperação continua sendo a chave. O aparelho guarda a chave, mas a frase de 12 a 24 palavras definida no BIP 39 recria tudo em qualquer outro aparelho. Se ela for fotografada, digitada em um site ou guardada em um arquivo, a carteira deixa de ser fria na prática. Veja como proteger a frase-semente.

Perda e herança. A chave offline é mais difícil de roubar e, pelo mesmo motivo, mais fácil de perder. O Bitcoin.org lembra que, sem backup e sem um plano para a família, os fundos podem se perder para sempre (Securing your wallet).

Ataques à cadeia de suprimentos

Um ataque à cadeia de suprimentos compromete o produto antes de ele chegar a você. No caso das carteiras de hardware, significa receber um aparelho adulterado.

Em maio de 2023, a empresa de segurança Kaspersky divulgou a investigação de um caso assim. A vítima havia comprado uma carteira de hardware que já vinha infectada; o aparelho parecia idêntico ao original. Por dentro, o firmware (o programa interno) tinha sido modificado para, entre outras coisas, substituir a frase gerada aleatoriamente por uma de 20 frases pré-definidas, conhecidas pelos criminosos. Foram desviados 1,33 BTC, cerca de US$ 29,6 mil na época, segundo a empresa (Kaspersky, 10/05/2023).

O caso ensina que a segurança da carteira fria depende de confiar no aparelho. As medidas indicadas na investigação são:

  • comprar só de fontes oficiais, isto é, o fabricante ou revendedores autorizados;
  • inspecionar o aparelho em busca de sinais de violação;
  • verificar se o firmware é legítimo e está atualizado;
  • anotar a frase durante a configuração e guardá-la com segurança.

Na avaliação da redação, há um sinal de alerta adicional que decorre da lógica do ataque: um aparelho que chega com uma frase de recuperação já impressa ou já configurada não deveria ser usado, porque alguém mais pode conhecê-la.

Camadas extras: senha adicional e multiassinatura

Duas técnicas reduzem a dependência de um único ponto de falha.

Senha adicional na frase. O BIP 39 permite proteger a frase com uma senha opcional. Cada senha gera uma semente diferente, e só a correta abre a carteira pretendida (BIP 39). Quem encontra só as palavras não leva os fundos. Em troca, se você esquecer a senha, a frase sozinha não recupera nada.

Multiassinatura. A carteira exige várias aprovações independentes antes de gastar, por exemplo 3 de 5 assinaturas. O Bitcoin.org aponta que isso ajuda a evitar roubo a partir de um único aparelho ou local comprometido (Securing your wallet). O preço é complexidade: mais chaves para guardar e mais etapas para recuperar.

Um cuidado técnico para quem usa carteiras só de observação, que mostram saldo sem guardar chaves privadas: o BIP 32 alerta que a chave pública estendida, somada a uma única chave privada filha não protegida (não “hardened”), permite reconstruir a chave privada de origem. Trate a chave pública estendida como informação sensível.

Como as empresas usam as duas

Corretoras e custodiantes enfrentam o mesmo dilema em escala maior: precisam de saldo em carteira quente para pagar saques e querem manter a maior parte fora da rede.

A Resolução BCB nº 520 pede que o contrato de custódia explique como os ativos dos clientes são distribuídos entre carteiras quentes, mornas e frias e qual é o método de guarda das chaves (art. 73), e que chaves múltiplas ou segmentadas fiquem em locais diferentes (art. 49) (Resolução BCB nº 520). A norma não fixa, no texto consultado, um percentual mínimo em carteira fria.

Um registro histórico mostra a lógica. Em março de 2014, já em recuperação judicial, a corretora Mt. Gox informou ter encontrado cerca de 200 mil bitcoins em uma carteira antiga e, “por motivos de segurança”, tê-los transferido para carteiras offline (MtGox, 20/03/2014).

Comparação lado a lado

Critério Hot wallet Cold wallet
Onde a chave é usada Aparelho conectado à internet Ambiente offline ou aparelho dedicado
Malware e invasão remota Expõe a chave Reduz muito a exposição
Phishing e assinatura maliciosa Vulnerável Ainda vulnerável, se você aprovar
Adulteração na compra Aplicativo falso Aparelho adulterado
Perda física e herança Depende do backup Depende do backup, com mais objetos para guardar
Custo e praticidade Gratuita e imediata Paga e mais lenta

Como combinar os dois modelos

Não é preciso escolher um só. A lógica descrita pelo Bitcoin.org é dividir por finalidade: pouco valor na carteira quente, para uso cotidiano, e a reserva em ambiente offline. É um raciocínio parecido com o que a regra brasileira pede que custodiantes explicitem ao distribuir ativos entre carteiras quentes, mornas e frias.

Na avaliação da redação, a escolha deve considerar também a sua capacidade de operar o modelo sem erro. Uma carteira fria mal configurada, com a frase fotografada ou comprada de fonte duvidosa, pode ser menos segura do que uma carteira quente bem cuidada. E nenhum dos modelos protege contra a oscilação de preço: criptoativos podem perder grande parte do valor, ou todo ele. Para o contexto geral, veja o que é Bitcoin e como funciona a blockchain do Bitcoin.

O que levar deste texto

  • A diferença entre hot e cold wallet é onde a chave privada é usada: em um aparelho conectado ou fora da rede. Isso decide se um malware consegue alcançá-la.
  • Carteira fria não impede que você aprove uma transação maliciosa, exponha a frase de recuperação, compre um aparelho adulterado ou perca o acesso. Esses riscos exigem cuidados próprios.
  • Dividir por finalidade, com pouco valor na carteira quente e a reserva offline, é a lógica descrita pelo Bitcoin.org. Custodiantes no Brasil devem documentar essa distribuição, conforme a Resolução BCB nº 520.

Fontes

  1. Resolução BCB nº 520, de 10 de novembro de 2025, Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 10 de novembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  2. Developer Guide: Wallets, Bitcoin Project (developer.bitcoin.org). Acesso em 8 de outubro de 2026
  3. Securing your wallet, Bitcoin.org. Acesso em 8 de outubro de 2026
  4. Ethereum wallets, ethereum.org. Acesso em 8 de outubro de 2026
  5. Ethereum security and scam prevention, ethereum.org. Acesso em 8 de outubro de 2026
  6. NISTIR 8202: Blockchain Technology Overview (seção 3.4.1, Private Key Storage), National Institute of Standards and Technology (NIST). Acesso em 8 de outubro de 2026
  7. BIP 32: Hierarchical Deterministic Wallets, Bitcoin Improvement Proposals (GitHub). Acesso em 8 de outubro de 2026
  8. BIP 39: Mnemonic code for generating deterministic keys, Bitcoin Improvement Proposals (GitHub). Acesso em 8 de outubro de 2026
  9. Announcement regarding the balance of bitcoins held by MtGox Co., Ltd. (20 de março de 2014), MtGox Co., Ltd.. Publicado em 20 de março de 2014 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  10. Almost $30K stolen via fake hardware wallet, Kaspersky investigation shows, Kaspersky. Publicado em 10 de maio de 2023 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  11. Avoiding Social Engineering and Phishing Attacks, Cybersecurity and Infrastructure Security Agency (CISA). Publicado em 1 de fevereiro de 2021 · Acesso em 8 de outubro de 2026

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Este artigo é educativo e informativo. Não é recomendação personalizada de compra, venda ou manutenção de nenhum ativo. Criptoativos e ativos tokenizados têm riscos, inclusive de perda total; as regras mudam de um país para outro.

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