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Pagamentos instantâneos pelo mundo: principais modelos
Vários países já transferem dinheiro em segundos, a qualquer hora. Os sistemas parecem iguais para quem usa, mas diferem em quem os controla, quem pode participar e quanto são usados.
- Autoria:
- Redação Token & Tech
- Editor responsável:
- Daniel Ferreira
Publicado em · 9 min de leitura
Também disponível em: English
Em três pontos
- Pagamento instantâneo é o que deixa o dinheiro disponível para quem recebe quase na hora, 24 horas por dia, todos os dias; o BIS conta mais de 100 jurisdições com esse tipo de sistema.
- Os modelos variam: sistema público do banco central (Pix), governança conjunta entre banco central e bancos (UPI) ou sistema privado supervisionado (Swish, na Suécia).
- Segundo estudo do BIS de 2024, a adoção tende a ser maior quando o banco central é dono do sistema, quando instituições não bancárias participam e quando há mais usos possíveis.
Em boa parte do mundo, mandar dinheiro para alguém ainda pode levar um dia útil ou mais. Em outros lugares, a transferência cai em segundos, inclusive no domingo à noite. A diferença está na existência de um sistema de pagamentos instantâneos (em inglês, fast payment system, ou FPS).
Este texto compara os principais modelos em uso. Ele não ensina a usar nenhum aplicativo nem recomenda serviços. O objetivo é mostrar como esses sistemas são organizados e por que alguns se espalharam mais rápido que outros.
O que conta como pagamento instantâneo
O Comitê de Pagamentos e Infraestruturas de Mercado (CPMI), grupo de bancos centrais ligado ao Banco de Compensações Internacionais (BIS), deu em 2016 a definição mais usada. Um serviço de pagamento rápido é aquele que deixa os fundos disponíveis para o recebedor imediatamente, ou quase, e que funciona de forma contínua, fora do horário bancário (CPMI, novembro de 2016).
São duas condições juntas. Não basta ser rápido em dia útil. O sistema precisa funcionar 24 horas, sete dias por semana.
Esses sistemas cuidam de pagamentos do varejo: entre pessoas, de pessoas para lojas, de empresas para empregados, do governo para cidadãos. As grandes transferências entre bancos continuam em outros sistemas.
Segundo artigo do BIS publicado em março de 2024, pessoas e empresas em mais de 100 jurisdições já tinham acesso a pagamentos instantâneos naquele momento (BIS Quarterly Review, março de 2024).
As peças que todo sistema precisa decidir
O mesmo artigo do BIS organiza as escolhas de desenho em quatro grupos. Eles ajudam a comparar sistemas que, vistos pelo celular, parecem iguais.
- Foco no usuário. Quais usos o sistema aceita (entre pessoas, comércio, contas, pagamentos do governo), se há apelidos para a conta, ligações com outros países e interfaces abertas para empresas criarem serviços.
- Infraestrutura. Como os bancos acertam as contas entre si no fundo do sistema e como funciona o cadastro de apelidos.
- Regras. Quem pode participar, quanto se cobra, quais são os limites por transação e por quais meios o pagamento começa: aplicativo, site, QR code.
- Governança. Quem é dono, quem opera e quem decide as regras.
Dois termos aparecem em todos os sistemas. O apelido (ou chave) é um dado fácil de lembrar, como número de celular ou e-mail, que substitui agência e conta. A liquidação é o acerto final de valores entre as instituições. Ela pode ser feita transação por transação, em tempo real, ou por compensação: as instituições somam o que devem umas às outras e acertam só a diferença em horários definidos.
Uma publicação do Banco Mundial sobre o kit de ferramentas que a instituição preparou para países interessados aponta, entre as tendências observadas, o uso de apelidos como e-mail e número de telefone, o QR code como novo canal, a solicitação de pagamento (request to pay) e a abertura para participantes que não são bancos (Banco Mundial, janeiro de 2021). O texto também registra que a maioria dos sistemas foi implantada em fases, e não de uma vez.
Três modelos de governança
A diferença mais visível entre os sistemas é quem manda neles. O BIS descreve três arranjos, com exemplos (BIS, março de 2024).
Público. O banco central é dono e operador. São os casos do CoDi, no México, e do Pix, no Brasil. No Pix, segundo o BIS, há também um fórum de consulta com o setor privado.
Governança conjunta. Na Índia, as regras do UPI são definidas pela National Payments Corporation of India (NPCI), organização em que bancos e o banco central indiano participam.
Privado. Na Suécia, o Swish e o sistema de liquidação por trás dele pertencem a bancos privados e são operados por eles. O banco central atua como supervisor.
Nenhum modelo é automaticamente melhor. Mas o desenho influencia quem entra no sistema, quanto ele custa e quão rápido ele se espalha.
Índia: UPI, o maior em número de transações
O UPI (Unified Payments Interface) é o sistema instantâneo indiano. No artigo do BIS, a Índia aparece como o maior mercado de pagamentos instantâneos do mundo em número de transações em 2022, à frente de China, Tailândia e Brasil.
Segundo o relatório anual do Reserve Bank of India, o banco central do país, o UPI processou cerca de 241,6 bilhões de transações no ano fiscal 2025-26 (de abril de 2025 a março de 2026), somando ₹ 314,2 lakh crore, ou cerca de 314 trilhões de rúpias. O volume cresceu 30% e o valor 20,6% em relação ao ano anterior. O UPI respondeu por quase 86% de todas as transações de pagamento de varejo do país no período (RBI, relatório anual publicado em maio de 2026).
Na classificação do BIS, a liquidação do UPI é feita por compensação, e não transação a transação. O sistema também é citado como exemplo de participação voluntária: nenhum banco é obrigado a aderir.
Brasil: Pix, o modelo público
O Pix é o exemplo mais citado de sistema criado, mantido e operado pelo banco central. O funcionamento detalhado dele é tema de outro texto do site. Aqui interessam três pontos que o BIS destaca na comparação internacional (BIS, março de 2024):
- a participação é obrigatória para as instituições maiores;
- o Banco Central construiu um novo sistema de liquidação em tempo real para o Pix;
- o custo para o lojista, segundo o BIS, é de 0,22% do valor da transação, contra 1,1% no cartão de débito e 2,2% no de crédito.
No mesmo artigo, o Brasil aparece entre os quatro maiores mercados de pagamentos instantâneos em número de transações e entre os primeiros em uso por habitante, ao lado da Tailândia, onde opera o PromptPay, e da Coreia do Sul.
Estados Unidos: FedNow, entrada recente e gradual
O Federal Reserve, banco central americano, lançou o FedNow em 20 de julho de 2023. No primeiro dia, 35 bancos e cooperativas de crédito, além de um órgão do Tesouro, estavam prontos para usar o serviço (Federal Reserve, julho de 2023). A adesão é voluntária. O sistema funciona todos os dias, incluindo fins de semana e feriados (Federal Reserve Financial Services).
Os números mostram uma curva bem diferente da indiana. Em 2025, o FedNow liquidou cerca de 8,4 milhões de pagamentos, somando US$ 853,4 bilhões. No segundo trimestre de 2026, foram cerca de 5 milhões de pagamentos e US$ 274,7 bilhões, segundo a página de estatísticas do próprio Fed, atualizada em 6 de julho de 2026 (FedNow, estatísticas de volume e valor).
O valor médio por pagamento é alto: cerca de US$ 55 mil no segundo trimestre de 2026, pelos dados do Fed. Na leitura da redação, isso indica um uso ainda puxado por transferências grandes, e não por pagamentos miúdos do dia a dia. Esses números medem só o FedNow, não o conjunto dos pagamentos instantâneos feitos no país. O BIS lista o FedNow entre os sistemas abertos apenas a bancos.
União Europeia: obrigação por lei e infraestrutura comum
Na Europa, a transferência instantânea em euro segue um padrão comum chamado SCT Inst (SEPA Instant Credit Transfer), definido pelo Conselho Europeu de Pagamentos. O Eurosistema, formado pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelos bancos centrais da zona do euro, mantém o TIPS, plataforma que liquida esses pagamentos em dinheiro do banco central, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Segundo o BCE, o TIPS processa cada transação em menos de 100 milissegundos e liquida pagamentos em euro, coroa sueca e coroa dinamarquesa (BCE, TIPS).
O passo mais recente foi regulatório. O Regulamento de Pagamentos Instantâneos, adotado em 13 de março de 2024, obriga bancos e outros prestadores que oferecem transferências comuns em euro a oferecer também a versão instantânea (BCE, Instant Payments Regulation). As principais regras, segundo o BCE:
- a tarifa da transferência instantânea não pode ser maior que a de uma transferência comum equivalente;
- antes de pagar, o cliente deve poder conferir se o nome do recebedor bate com a conta informada (a chamada verificação do beneficiário), sem custo;
- os prestadores precisam checar diariamente se seus clientes estão em listas de sanções financeiras.
Os prazos foram escalonados. Na zona do euro, os bancos tiveram de estar aptos a receber pagamentos instantâneos até 9 de janeiro de 2025 e a enviá-los até 9 de outubro de 2025. Nos países da UE fora da zona do euro, os prazos vão até julho de 2027. Instituições de pagamento e de moeda eletrônica têm prazos próprios, a partir de abril de 2027.
O modelo europeu é diferente dos anteriores. Não há um aplicativo ou uma marca única. A regra obriga a oferta, e o TIPS, segundo o BCE, recebe tanto prestadores de pagamento quanto câmaras de compensação automatizada.
Reino Unido: Faster Payments, um dos pioneiros
O Faster Payment System britânico funciona desde 2008, dia e noite, 365 dias por ano, e aceita pagamentos de até £ 1 milhão. Os limites de cada banco podem ser menores. Em 2025, o sistema processou 5,55 bilhões de transações, somando £ 4,84 trilhões, segundo a Pay.UK, entidade que publica os dados do sistema (Pay.UK).
A mesma página registra duas mudanças de acesso: em 2014, um programa ampliou o número de participantes diretos; em 2018, novas regras permitiram que instituições não bancárias abrissem conta de liquidação no Banco da Inglaterra, e a primeira delas entrou como participante direta.
O que explica a adoção
O artigo do BIS de 2024 analisou 13 jurisdições, incluindo Brasil, Índia, México, Suécia e Tailândia, com dados mensais até dezembro de 2023 (BIS, março de 2024). Os autores encontraram mais uso por habitante quando:
- instituições não bancárias, como fintechs, podem participar;
- o sistema aceita mais tipos de uso (não só transferência entre pessoas);
- há mais conexões com sistemas de outros países;
- o banco central é dono do sistema.
O tipo de liquidação, em tempo real ou por compensação, não teve efeito estatisticamente relevante no estudo. É uma correlação observada em um grupo limitado de países, não uma regra garantida. Fatores como preço para o lojista, obrigatoriedade de adesão e a existência de alternativas já populares também pesam.
Ligar sistemas de países diferentes
O passo seguinte é conectar sistemas nacionais para transferências internacionais. O CPMI publicou em outubro de 2024 um relatório para o G20 sobre governança e supervisão dessas ligações. O documento aponta essas questões entre os principais obstáculos, por envolverem várias moedas, várias jurisdições e muitas escolhas de desenho possíveis (CPMI, outubro de 2024).
O projeto Nexus, do centro de inovação do BIS em Singapura, propôs uma rede única em vez de acordos bilaterais entre cada par de países. Em 2025, Índia, Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia criaram a Nexus Global Payments para levar o projeto à operação real, e o BIS encerrou sua participação (BIS Innovation Hub, Projeto Nexus).
Riscos que acompanham a velocidade
Pagamento instantâneo costuma ser final: depois de liquidado, não volta sozinho. Isso é bom para quem recebe, mas aumenta o estrago de golpes em que a vítima é convencida a transferir. A verificação do beneficiário europeia e os limites de valor definidos pelos bancos são respostas a esse risco. Se você usa algum desses sistemas, vale conhecer os golpes financeiros digitais mais comuns e como reagir.
Há também risco operacional. Um sistema que funciona sem parar não tem janela noturna para manutenção, e uma falha afeta milhões de pagamentos ao mesmo tempo. Por isso, bancos centrais tratam essas infraestruturas como críticas.
Pagamentos instantâneos não são moeda nova. O dinheiro continua sendo depósito em banco ou instituição de pagamento. A discussão sobre dinheiro digital emitido pelo próprio banco central é outra, tratada em o que são CBDCs.
O que levar deste texto
- Pagamento instantâneo exige duas coisas: dinheiro disponível quase na hora e funcionamento 24 horas, todos os dias.
- Os sistemas diferem principalmente em governança (público, conjunto ou privado), em quem pode participar e em quanto se cobra.
- UPI e Pix mostram adoção em massa; FedNow cresce de forma gradual e concentrada em valores altos; a UE usa a lei para obrigar a oferta; o Reino Unido opera o modelo desde 2008.
- Os números deste texto têm data. Volumes de pagamento mudam rápido, então confira sempre a fonte oficial mais recente.
Fontes
- Fast payments – Enhancing the speed and availability of retail payments, Committee on Payments and Market Infrastructures (CPMI), BIS. Publicado em 8 de novembro de 2016 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Fast payments: design and adoption (BIS Quarterly Review, março de 2024), Bank for International Settlements (BIS). Publicado em 4 de março de 2024 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Fast Payment Systems: A toolkit helps countries and regions navigate implementation, Banco Mundial (World Bank Blogs). Publicado em 15 de janeiro de 2021 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Annual Report 2025-26 – Payment and Settlement Systems, Reserve Bank of India. Publicado em 29 de maio de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Federal Reserve announces that its new system for instant payments, the FedNow Service, is now live, Board of Governors of the Federal Reserve System. Publicado em 20 de julho de 2023 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- FedNow Service Volume and Value Statistics, Federal Reserve Financial Services. Publicado em 6 de julho de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- FedNow Service Operating Hours, Federal Reserve Financial Services. Acesso em 8 de outubro de 2026
- Instant Payments Regulation, Banco Central Europeu (BCE). Acesso em 8 de outubro de 2026
- What is TIPS?, Banco Central Europeu (BCE). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Faster Payment System, Pay.UK. Acesso em 8 de outubro de 2026
- Linking fast payment systems across borders: governance and oversight – final report, Committee on Payments and Market Infrastructures (CPMI), BIS. Publicado em 15 de outubro de 2024 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Project Nexus, BIS Innovation Hub. Acesso em 8 de outubro de 2026
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