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Pix: arquitetura e funcionamento do sistema
Por trás de um Pix que cai em segundos há duas peças centrais operadas pelo Banco Central, o SPI e o DICT, e um conjunto de regras que define quem participa e como. Veja o caminho de uma transação e as funcionalidades mais recentes.
- Autoria:
- Redação Token & Tech
- Editor responsável:
- Daniel Ferreira
Publicado em · 9 min de leitura
Também disponível em: English
Em três pontos
- O Pix é um arranjo de pagamentos do Banco Central: o DICT traduz a chave Pix em dados da conta e o SPI liquida a transferência entre instituições, em tempo real, 24 horas por dia.
- Chave Pix, QR Code estático, QR Code dinâmico e dados da conta são formas de iniciar o mesmo pagamento; o QR Code dinâmico passou de 5% para 40% das transações entre 2021 e 2025.
- Pix Automático (desde junho de 2025) e Pix por aproximação ampliam os usos, mas a segurança continua dependendo também de você conferir quem recebe antes de confirmar.
Para quem usa, o Pix é simples: você digita uma chave, confere o nome e o dinheiro chega em segundos. Para chegar a essa experiência, porém, o Banco Central montou uma infraestrutura própria, com regras para mais de 900 instituições e sistemas que funcionam todos os dias do ano.
Este texto explica as peças dessa arquitetura, o caminho de uma transação e as funcionalidades mais recentes, sempre com base nas normas e páginas oficiais do Banco Central. Golpes e o Mecanismo Especial de Devolução (MED) têm um texto próprio, sobre golpes financeiros digitais.
O que é o Pix, do ponto de vista técnico
Para o Banco Central, o Pix é um sistema de pagamento instantâneo que permite transferir dinheiro entre contas em segundos, a qualquer hora e dia, a partir de conta corrente, poupança ou conta de pagamento pré-paga (Banco Central, Pix). Ele foi lançado em 16 de novembro de 2020.
Juridicamente, o Pix é um arranjo de pagamentos: um conjunto de regras que disciplina como um serviço de pagamento é prestado ao público. Ele foi instituído pela Resolução BCB nº 1, de 12 de agosto de 2020, que aprova o Regulamento do Pix (Resolução BCB nº 1/2020). Essa resolução continua vigente e já foi alterada dezenas de vezes; há mudanças publicadas em 2026, inclusive com efeitos programados para 2027. Por isso, detalhes operacionais podem mudar, e a referência é sempre a versão em vigor no site do Banco Central.
O Banco Central tem dois papéis no Pix: é o regulador, que define as regras, e o gestor das plataformas operacionais, que constrói e opera a infraestrutura (Banco Central, Sobre o Pix).
As duas peças centrais: DICT e SPI
DICT: a lista telefônica das chaves
O DICT (Diretório de Identificadores de Contas Transacionais) é a base de dados que liga cada chave Pix aos dados da conta: nome, CPF ou CNPJ, instituição, agência, número e tipo da conta, data de criação da chave, entre outros. Ele é gerido e operado pelo Banco Central (Banco Central, DICT).
Pelo Regulamento, há cinco tipos de chave: número de celular, e-mail, CPF, CNPJ e chave aleatória, que é gerada pelo próprio DICT (Resolução BCB nº 1/2020). A chave funciona como um apelido da conta. Você não precisa ter chave para fazer ou receber um Pix: dá para usar os dados completos da conta, como em uma transferência comum (Banco Central, Sobre o Pix).
O DICT também tem função de segurança. Ele guarda notificações de infração e marcações de fraude associadas a chaves, CPFs e CNPJs, informação que as instituições consultam antes de autorizar um pagamento (Banco Central, Segurança no Pix).
SPI: onde o dinheiro de fato se move
O SPI (Sistema de Pagamentos Instantâneos) é, nas palavras da norma, “a infraestrutura centralizada de liquidação bruta em tempo real” dos pagamentos instantâneos (Resolução BCB nº 195/2022). Dois termos ajudam a entender:
- Liquidação é o momento em que a obrigação entre as instituições se extingue, com a transferência definitiva do dinheiro.
- Bruta significa que cada transação é liquidada individualmente, sem esperar para compensar várias delas no fim do dia.
A liquidação acontece em contas que as instituições mantêm no próprio Banco Central, chamadas Contas PI (Contas Pagamentos Instantâneos). A mesma norma define pagamento instantâneo como aquele em que a transmissão e a disponibilidade dos fundos para o recebedor ocorrem em tempo real, com serviço disponível 24 horas por dia, em todos os dias do ano.
Há duas formas de participar do SPI (Resolução BCB nº 195/2022):
- Direta: a instituição tem sua própria Conta PI e se conecta diretamente ao SPI.
- Indireta: a instituição não tem Conta PI e liquida por meio de um participante direto, que a registra e atua como seu liquidante. Bancos comerciais, bancos múltiplos com carteira comercial e caixas econômicas não podem participar de forma indireta.
Toda a comunicação ocorre na RSFN (Rede do Sistema Financeiro Nacional), separada da internet, com informações criptografadas e certificados digitais exigidos das instituições (Banco Central, Segurança no Pix).
Quem participa do Pix
A participação é obrigatória para instituições financeiras e de pagamento autorizadas pelo Banco Central com mais de 500 mil contas de clientes ativas. As demais podem aderir (Resolução BCB nº 1/2020). O Regulamento prevê cinco modalidades:
- Provedor de conta transacional: a instituição que oferece a conta ao cliente. É o seu banco, fintech ou cooperativa.
- Ente governamental: a Secretaria do Tesouro Nacional, para recolhimentos e pagamentos típicos.
- Liquidante especial: instituição que presta serviço de liquidação a outros participantes, sem oferecer Pix diretamente a pessoas e empresas.
- Iniciador: instituição cujo papel no Pix é iniciar pagamentos a partir de contas em outras instituições, usando a infraestrutura do Open Finance.
- Instituição usuária: instituição que usa o Pix apenas para pagamentos e recebimentos próprios.
O Banco Central informa mais de 900 instituições participantes (Banco Central, Sobre o Pix).
O caminho de um Pix, passo a passo
Na descrição a seguir, a redação simplifica o fluxo para fins didáticos; o detalhamento técnico está nos manuais listados na página de normas do Banco Central.
- Você informa o destino. Digita a chave, lê um QR Code ou preenche os dados da conta.
- Seu banco consulta o DICT. Com a chave, o DICT devolve os dados da conta do recebedor e informações de segurança associadas a ela.
- Você confere e confirma. O app mostra os dados de quem vai receber, como o nome, que o Banco Central recomenda conferir sempre. Você autentica com senha, biometria ou token. Por regra, toda transação exige autenticação (Banco Central, Segurança no Pix).
- Seu banco envia a ordem ao SPI. O SPI debita a Conta PI da instituição pagadora e credita a Conta PI da instituição recebedora (ou do liquidante de cada uma).
- O banco do recebedor credita a conta e os dois lados são avisados da conclusão.
Se uma das instituições for participante indireta, o passo 4 passa pelo participante direto que a representa. Se a transação levantar suspeita de fraude, as instituições podem aplicar um tempo maior de análise antes de autorizá-la, ou bloquear o valor recebido por até 72 horas no chamado bloqueio cautelar (Banco Central, Segurança no Pix).
Chave, QR Code estático e QR Code dinâmico
O Regulamento lista três mecanismos para enviar ou disponibilizar previamente as informações de um Pix: chave, QR Code dinâmico e QR Code estático (Resolução BCB nº 1/2020). A diferença entre os dois QR Codes está onde ficam os dados:
- QR Code estático: as informações da transação ficam dentro do próprio código. Tem poucas opções de configuração. É o que um pequeno comerciante imprime e deixa no balcão.
- QR Code dinâmico: as informações ficam fora do código, que aponta para elas. Permite muitas configurações e costuma ser gerado para cada cobrança, como no comércio eletrônico. O Banco Central exige certificados digitais específicos para gerá-lo (Banco Central, Segurança no Pix).
Muitas cobranças trazem, ao lado do QR Code, um código em texto para copiar e colar no app, o “Pix Copia e Cola”, útil quando não dá para escanear.
Segundo o relatório de gestão do Pix, em 2025 a chave e o QR Code dinâmico responderam por cerca de 40% das transações cada; a inserção manual de dados, por 12%; e o QR Code estático, por 8%. O dinâmico correspondia a 5% em 2021, crescimento que o Banco Central associa ao uso do Pix no varejo (Banco Central, Relatório de Gestão do Pix 2023-2025).
As funcionalidades mais recentes
Pix Automático
O Pix Automático permite pagar contas recorrentes, como energia, escola, academia ou assinaturas, com uma única autorização prévia. Ele entrou em funcionamento em 16 de junho de 2025 (Relatório de Gestão do Pix 2023-2025).
O fluxo descrito pelo Banco Central é este: a empresa oferece a opção; você autoriza e define regras, como o valor máximo de cada cobrança; nos dias anteriores ao vencimento, a empresa envia a cobrança ao seu banco, que agenda o pagamento e avisa você; no dia, o banco paga conforme as regras autorizadas. Você pode cancelar cobranças agendadas e a própria autorização pelo app (Banco Central, Pix Automático). Para o pagador, não há tarifa.
Pix por aproximação
O Pix por aproximação usa NFC (near field communication), a tecnologia de comunicação por proximidade, para pagar encostando o celular ou o relógio na maquininha (Banco Central, Pix por aproximação). Segundo o relatório de gestão, o Banco Central publicou as normas em agosto de 2024 e incorporou formalmente essa forma de iniciação ao Regulamento do Pix em junho de 2025.
Há dois modelos. Pelo app do banco, você abre o aplicativo, se autentica e aproxima. Pela carteira digital, você vincula sua conta uma vez, pelos mecanismos do Open Finance, e a carteira precisa ser uma iniciadora autorizada pelo Banco Central. O valor máximo inicial é de R$ 500 por transação, e você pode reduzi-lo. A oferta é facultativa para bancos, carteiras e maquininhas.
Outras funções
O Banco Central lista ainda o Pix Agendado, cuja versão recorrente passou a ser obrigatória em outubro de 2024, além de Pix Saque e Pix Troco, para retirar dinheiro em espécie em estabelecimentos (Banco Central, Pix; Relatório de Gestão do Pix).
As camadas de segurança
O Banco Central afirma que seus sistemas nunca foram vítimas de ataques bem-sucedidos, mas reconhece que fraudes, golpes e ataques a instituições participantes usam cada vez mais o Pix como meio de distribuição dos recursos (Relatório de Gestão do Pix 2023-2025). As principais camadas, segundo a página de segurança do Banco Central (Segurança no Pix):
- Autenticação em toda transação e em operações com chaves.
- Rastreabilidade de todas as transações, o que ajuda polícia e Justiça a identificar contas envolvidas em fraudes.
- Dispositivo cadastrado: registrar ou alterar chaves e iniciar transações exige aparelho previamente cadastrado para pessoas físicas; em aparelho não cadastrado, o limite é de R$ 200 por transação e R$ 1.000 por dia.
- Limite noturno: após as 20h, o limite padrão para pessoa física é de R$ 1.000, ajustável a pedido. Pedidos de redução de limite valem na hora; os de aumento podem levar de 24 a 48 horas (Banco Central, Sobre o Pix).
- Conferência com a Receita Federal: o nome vinculado à chave deve corresponder ao cadastro de CPF ou CNPJ.
- Marcações de fraude no DICT e bloqueio cautelar, já citados.
- MED, para tentar devolver valores em caso de fraude. Como ele funciona, os prazos e o que ele não cobre estão no texto sobre golpes financeiros digitais.
Na avaliação da redação, nenhuma dessas camadas substitui a conferência que só você pode fazer: o nome de quem recebe, antes de confirmar.
O Pix em números
Os números abaixo são os publicados pelo Banco Central na página do Pix, consultada em 8 de outubro de 2026 (Banco Central, Pix):
- mais de 170 milhões de pessoas físicas já fizeram Pix, cerca de 80% da população;
- mais de 7 bilhões de transações em maio de 2026, somando mais de R$ 3 trilhões no mês;
- recorde de 313,3 milhões de transações em um único dia, em 5 de dezembro de 2025.
Esses dados são atualizados com frequência; a página de estatísticas do Banco Central traz as séries completas.
O que levar deste texto
- O Pix é um arranjo de pagamentos regulado e operado pelo Banco Central. O DICT liga chaves a contas e guarda informações antifraude; o SPI liquida cada transação, uma a uma, em tempo real e o ano todo.
- Chave, QR Code estático, QR Code dinâmico e dados da conta são portas de entrada diferentes para o mesmo pagamento. Pix Automático e Pix por aproximação ampliaram os usos a partir de 2025, apoiados em parte no Open Finance.
- A segurança combina regras do sistema, como autenticação, limites, dispositivo cadastrado e bloqueio cautelar, com um hábito seu: conferir quem recebe antes de confirmar.
Fontes
- Resolução BCB nº 1, de 12 de agosto de 2020 (institui o arranjo de pagamentos Pix e aprova o seu Regulamento), Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 12 de agosto de 2020 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Resolução BCB nº 195, de 3 de março de 2022 (Regulamento do SPI e da Conta PI), Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 3 de março de 2022 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Pix, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Sobre o Pix, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Diretório de Identificadores de Contas Transacionais (DICT), Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Segurança no Pix, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Pix Automático, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Pix por aproximação, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Relatório de Gestão do Pix 2023-2025, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
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