Finanças e Economia Digital · Explicador
Como fintechs ganham dinheiro
Conta sem tarifa e Pix grátis não significam serviço sem receita. Veja de onde vem o dinheiro das fintechs, quanto disso é regulado e por que muitas acabam dependendo do crédito.
- Autoria:
- Redação Token & Tech
- Editor responsável:
- Daniel Ferreira
Publicado em · 7 min de leitura
Também disponível em: English
Em três pontos
- As principais receitas são tarifa de intercâmbio dos cartões, spread de crédito, rendimento do dinheiro parado (float), tarifas, assinaturas, comissões de marketplace e serviços prestados a outras empresas (BaaS).
- Várias dessas fontes têm limite regulatório no Brasil: o intercâmbio de débito e pré-pago tem teto desde abril de 2023, e o saldo de conta pré-paga só pode ficar no Banco Central ou em títulos públicos.
- Com receitas pequenas por cliente, muitas fintechs migram para o crédito, que rende mais e também concentra o risco, como mostram relatórios do Banco Central e do FMI.
Você abre uma conta digital, não paga mensalidade, faz Pix de graça e recebe um cartão sem anuidade. A pergunta é inevitável: de onde vem o dinheiro dessa empresa?
A resposta curta é que ela ganha pouco com cada cliente em várias frentes ao mesmo tempo. Uma parte vem de quem vende, não de quem compra. Outra vem do dinheiro que fica parado na conta. E, cada vez mais, vem do crédito. Este texto explica cada fonte, o que a regulação brasileira limita e que riscos cada modelo carrega.
Ao longo do texto, fintech é a empresa que, nas palavras do Banco Central (BC), introduz inovações nos mercados financeiros pelo uso intenso de tecnologia. Ela pode ter licença de banco, de instituição de pagamento ou de fintech de crédito. A diferença entre esses tipos está explicada em neobancos versus bancos tradicionais.
Por que “grátis” não é o fim da conversa
Serviços de pagamento funcionam como mercados de dois lados: há quem paga e quem recebe, e a empresa pode cobrar mais de um lado e menos do outro. O BC usa esse termo no Relatório de Economia Bancária 2023 ao descrever a remuneração dos serviços de pagamento. É por isso que o cartão pode ser gratuito para você e ainda gerar receita: quem paga, em boa parte, é o lojista.
O mesmo relatório observa que a competição crescente levou as instituições de pagamento a buscar diversificar suas fontes de receita.
As fontes de receita, uma a uma
1. Tarifa de intercâmbio
Quando você paga com cartão, a loja recebe um pouco menos que o valor da compra. Esse desconto se chama MDR (merchant discount rate) e é cobrado pelo credenciador, a empresa da maquininha. Do MDR sai a tarifa de intercâmbio, que o credenciador repassa ao emissor do cartão. Também sai a tarifa da bandeira.
Para um emissor de cartão, como muitas contas digitais, o intercâmbio é receita por transação: quanto mais você usa o cartão, mais ele ganha.
Essa receita tem teto no Brasil. A Resolução BCB nº 246/2022 limitou o intercâmbio em 0,5% por transação nos arranjos domésticos de compra de contas de depósito (débito) e em 0,7% nos de contas pré-pagas. O limite vale desde 1º de abril de 2023. A norma não trata de cartões de crédito.
2. Receita do credenciamento e da antecipação
Do outro lado do balcão, o credenciador fica com o MDR depois de pagar intercâmbio e bandeira. E tem uma segunda fonte importante: a antecipação de recebíveis. O lojista que vendeu parcelado pode receber antes, mediante desconto.
O peso disso é grande. Segundo o Relatório de Economia Bancária 2023, nos conglomerados formados só por instituições de pagamento, a antecipação respondeu por 51% das receitas com serviços de pagamento em 2023. Nos conglomerados liderados por instituição de pagamento que incluem uma instituição financeira, essa fatia foi de 2%. O BC explica que os primeiros dependem basicamente de capital próprio para financiar a antecipação e precisam de grande volume de transações para ter resultado.
3. Spread de crédito
Spread é a diferença entre o que a instituição cobra de quem toma emprestado e o que ela paga para obter o dinheiro. Inclui o custo da inadimplência, ou seja, de quem não paga.
Cartão de crédito, empréstimo pessoal e capital de giro rendem mais por cliente que tarifas e intercâmbio. Por isso, o crédito tende a virar o centro do modelo à medida que a base de clientes cresce.
O risco também cresce. O Relatório de Estabilidade Financeira de maio de 2026 registrou que o segmento de instituições digitais foi o que mais aumentou o custo com provisões para perdas no segundo semestre de 2025. Segundo o BC, ele opera modalidades de crédito cujo risco se materializa mais quando as condições financeiras ficam restritivas.
Nem toda fintech pode emprestar com dinheiro de terceiros. A sociedade de crédito direto (SCD) empresta apenas com capital próprio ou repasses do BNDES. A instituição de pagamento não pode conceder crédito.
4. Float: o rendimento do dinheiro parado
Float é o ganho obtido com o dinheiro dos clientes enquanto ele está parado na conta. Em um banco, depósitos financiam empréstimos. Em uma conta de pagamento pré-paga, a regra é diferente.
A Resolução BCB nº 80/2021 obriga o emissor de moeda eletrônica a manter o equivalente aos saldos dos clientes aplicado apenas em dinheiro no BC ou em títulos públicos federais. O Relatório de Economia Bancária 2023 lista os juros desses títulos entre as receitas dos emissores. Ou seja, o float existe, mas o emissor não pode emprestar esse dinheiro. O ganho depende da taxa de juros: com juros altos, rende mais; com juros baixos, menos.
5. Tarifas
Mesmo com conta gratuita, pode haver serviços tarifados, por exemplo: saques além de uma cota, remessas internacionais, câmbio, segunda via de cartão, pacotes para empresas. As fintechs de crédito podem cobrar por análise e cobrança de crédito para terceiros. A sociedade de empréstimo entre pessoas (SEP) cobra tarifas pela intermediação entre credor e devedor, segundo o BC.
6. Assinaturas
Algumas contas oferecem planos pagos com benefícios extras, como cartão de categoria superior, mais saques gratuitos ou atendimento prioritário. A assinatura dá receita recorrente e previsível, que não depende do volume de compras. O desafio é convencer o cliente a pagar por algo que a concorrência oferece sem custo.
7. Marketplace e venda cruzada
O aplicativo também vira vitrine. A fintech distribui seguros, investimentos e produtos de parceiros e recebe comissão. Algumas abrem lojas virtuais no app e ganham sobre as vendas.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) descreve a lógica que torna isso atraente para grandes plataformas (Relatório Econômico Anual 2019, capítulo III). Mais usuários geram mais dados, que melhoram os serviços, que atraem mais usuários. Dados de pagamento, por exemplo, podem alimentar a análise de crédito. O mesmo relatório aponta os riscos: a plataforma pode favorecer os próprios produtos, e o uso de dados pode levar a discriminação de preços ou exclusão.
8. BaaS: vender a infraestrutura
Uma fintech com licença pode ganhar dinheiro prestando serviços a outras empresas que querem oferecer conta, cartão ou crédito com a própria marca. É o modelo chamado Banking as a Service (BaaS), explicado em detalhe no texto sobre embedded finance e BaaS.
A Resolução Conjunta nº 16/2025 exige que o contrato entre as partes defina a forma de remuneração entre elas. Também proíbe que a empresa parceira cobre do cliente, em nome próprio, tarifa ou comissão pelos produtos da instituição autorizada. As tarifas cobradas de você seguem as mesmas regras que valem para qualquer instituição autorizada.
O que fica de fora da conta de receitas
Receita não é lucro. O estudo do FMI sobre 37 neobancos em 18 economias encontrou custos operacionais mais altos que os de bancos tradicionais, puxados por gastos com aquisição de clientes, como marketing, e com conformidade (FMI, abril de 2022). O mesmo estudo observou que a renda mais baixa dos clientes limita a venda de seguros, investimentos e outros produtos geradores de tarifa. E que poucos neobancos davam lucro naquele período.
O Banco Central Europeu (BCE), com dados do fim de 2024, encontrou gastos com publicidade e marketing três vezes maiores nos bancos digitais do que nos tradicionais.
No Brasil, o BC tem um diagnóstico em duas partes. Instituições digitais vêm ganhando eficiência: atender um cliente a mais custa pouco, e a receita cresce mais rápido que as despesas. No segundo semestre de 2025, foi o segmento com o maior avanço de rentabilidade. Mas é também o que mais aumentou provisões para perdas de crédito.
A infraestrutura pública muda o jogo
Parte das receitas tradicionais encolheu por causa da infraestrutura pública. Uma transferência que antes gerava tarifa hoje pode ser feita por Pix. E o Open Finance permite que você leve seus dados para outra instituição e que pagamentos sejam iniciados por terceiros. Isso cria espaço para novos modelos, como o das iniciadoras de pagamento, que, segundo o BC, podem ser remuneradas por taxa por transação ou pelas instituições e plataformas que ganham com o volume extra.
Na avaliação da redação, o efeito combinado é empurrar as fintechs para receitas que dependem de relacionamento, especialmente crédito e venda cruzada. É ali que está a margem, e é ali que está o risco.
O que isso significa para você
- O produto gratuito tem contrapartida. Pode ser o uso do cartão, a oferta de crédito, a venda de outros produtos ou o uso dos seus dados, dentro do que você autorizou.
- Crédito fácil é o centro do modelo. Compare o Custo Efetivo Total antes de aceitar uma oferta no app.
- Saber de onde vem a receita ajuda a avaliar a empresa. Uma instituição que depende de crédito arriscado está mais exposta a ciclos de inadimplência.
O que levar deste texto
- Fintechs combinam várias receitas pequenas: intercâmbio, MDR e antecipação, spread de crédito, float, tarifas, assinaturas, comissões e BaaS.
- No Brasil, a regulação limita várias delas: teto de intercâmbio para débito e pré-pago, saldo de conta pré-paga aplicado só no BC ou em títulos públicos, e regras de remuneração no BaaS.
- Como as receitas por cliente são baixas, o crédito tende a virar a principal fonte de margem. Relatórios do BC, do FMI e do BCE mostram que isso melhora o resultado em fases boas e amplia as perdas em fases ruins.
Fontes
- Relatório de Economia Bancária 2023, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Resolução BCB nº 246, de 26 de setembro de 2022, Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 26 de setembro de 2022 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Resolução BCB nº 80, de 25 de março de 2021, Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 25 de março de 2021 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Fintechs, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Resolução Conjunta nº 16, de 28 de novembro de 2025, Banco Central do Brasil / Conselho Monetário Nacional (BR). Publicado em 28 de novembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Relatório de Estabilidade Financeira, v. 25, n. 1 (maio de 2026), Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Global Financial Stability Report, April 2022: Chapter 3: The Rapid Growth of Fintech: Vulnerabilities and Challenges for Financial Stability, Fundo Monetário Internacional (FMI). Publicado em 19 de abril de 2022 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Digital banking: how new bank business models are disrupting traditional banks (Financial Stability Review, May 2025, Box), Banco Central Europeu (BCE) (EU). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Big tech in finance: opportunities and risks (Annual Economic Report 2019, Chapter III), Banco de Compensações Internacionais (BIS). Acesso em 8 de outubro de 2026
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