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CBDCs: o que são moedas digitais de bancos centrais

Uma CBDC é dinheiro digital emitido diretamente pelo banco central. Quase todos os bancos centrais estudam a ideia, mas pouquíssimos a lançaram, e os motivos dizem muito sobre o tema.

Editor responsável:
Daniel Ferreira

Publicado em · 8 min de leitura

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Em três pontos

  • CBDC é dinheiro digital na moeda nacional que é obrigação direta do banco central, como a cédula; o saldo no banco, por outro lado, é uma dívida do banco com você.
  • Há CBDCs de varejo, para o público, e de atacado, para instituições financeiras; segundo pesquisa do BIS com 93 bancos centrais, 91% estudavam uma das duas ou ambas.
  • O principal risco discutido é a migração de depósitos dos bancos para o banco central; limites de saldo e ausência de juros são as respostas mais citadas.

O dinheiro que você usa no dia a dia já é quase todo digital. O salário cai na conta, as compras saem por cartão ou transferência. Mesmo assim, há uma diferença importante entre esse dinheiro e uma cédula. A cédula é emitida pelo banco central. O saldo na conta é uma promessa do seu banco.

Uma moeda digital de banco central, ou CBDC (do inglês central bank digital currency), seria uma terceira forma: dinheiro digital emitido diretamente pelo banco central. Este texto explica o conceito, os modelos em discussão, os riscos e o estágio de alguns projetos em outubro de 2026.

O que é uma CBDC

O Banco de Compensações Internacionais (BIS), organização que reúne bancos centrais, define a CBDC como dinheiro digital denominado na unidade de conta nacional e que é uma obrigação direta do banco central (BIS, Relatório Econômico Anual, junho de 2021). A ordem executiva americana de janeiro de 2025, que trata do tema por outro ângulo, usa praticamente a mesma definição (Casa Branca, janeiro de 2025).

Três termos ajudam a entender por que isso importa:

  • Unidade de conta nacional. A CBDC vale exatamente uma unidade da moeda do país. Um euro digital seria um euro, não um token que oscila de preço.
  • Obrigação direta. Quem tem a CBDC tem um direito contra o banco central, não contra um banco comercial. É o mesmo que acontece com a cédula.
  • Dinheiro de banco central. É o dinheiro que o próprio banco central emite. Hoje, o público só tem acesso a ele em papel. Bancos têm acesso digital, por meio das reservas que mantêm no banco central.

Por isso, uma CBDC não é o mesmo que pagamento instantâneo. Sistemas como o Pix ou o UPI movimentam depósitos bancários com rapidez, mas não criam uma nova forma de dinheiro (veja os principais modelos de pagamentos instantâneos pelo mundo).

Também não é o mesmo que uma stablecoin. Stablecoins são emitidas por empresas privadas e dependem das reservas que elas mantêm, como explicado em o que são stablecoins. Uma CBDC é emitida pelo Estado e não depende de reserva de terceiros.

Varejo e atacado

Um relatório de 2018 do Comitê de Pagamentos e Infraestruturas de Mercado (CPMI), ligado ao BIS, separou as CBDCs em dois tipos (CPMI e Markets Committee, março de 2018):

  • CBDC de varejo (ou de uso geral): disponível para o público. É a que costuma aparecer no noticiário, descrita pelo BIS como algo próximo de uma forma digital de dinheiro em espécie.
  • CBDC de atacado: restrita a instituições financeiras, para liquidar operações entre elas. Funciona de modo parecido com as reservas bancárias atuais, mas pode permitir pagamentos condicionais, que só se completam quando outra condição é cumprida (por exemplo, a entrega de um título).

A distinção é importante porque os debates são diferentes. A CBDC de atacado mexe com a infraestrutura do mercado financeiro. A de varejo mexe com a relação entre o público, os bancos e o banco central.

Como uma CBDC de varejo seria desenhada

O BIS discutiu as escolhas de desenho no relatório anual de 2021 (BIS, junho de 2021). Duas delas aparecem em quase todos os projetos.

Quem atende o público. O banco central poderia atender cada usuário diretamente, mas o BIS considerou esse modelo pouco desejável: concentraria custos e tarefas no banco central e reduziria a inovação privada. A direção mais promissora, segundo o relatório, é o modelo em dois níveis: o banco central emite e mantém a infraestrutura central, e bancos e outras instituições cuidam de abrir carteiras, atender clientes e fazer checagens contra lavagem de dinheiro.

Conta ou token. Em um desenho baseado em conta, o acesso está ligado à identidade do usuário, como numa conta bancária. Em um desenho baseado em token, o valor circula de forma mais parecida com uma cédula, validado por credenciais criptográficas. O relatório avalia que anonimato total dificilmente atenderia ao interesse público, por causa do combate a crimes financeiros.

Privacidade. Como uma CBDC registra pagamentos, o tema é central. O BIS defende separar quem presta o serviço de pagamento de quem controla os dados, e limitar o acesso de autoridades a casos excepcionais previstos em lei.

O risco mais discutido: a fuga de depósitos

Se as pessoas puderem guardar dinheiro do banco central no celular, parte dos depósitos pode sair dos bancos. O relatório do CPMI de 2018 já alertava que, em momentos de estresse, os depósitos poderiam fugir com mais facilidade para o banco central (CPMI, 2018).

O risco tem duas faces:

  • No dia a dia, menos depósitos podem significar menos recursos para os bancos emprestarem, ou crédito mais caro.
  • Em uma crise, uma corrida digital poderia ser mais rápida do que uma corrida a agências.

As respostas mais citadas pelo BIS são limites de quanto cada pessoa pode guardar, remuneração baixa ou nula e um mecanismo que manda automaticamente para a conta bancária o que passar do limite (BIS, 2021).

Outros riscos aparecem no debate público: vigilância sobre gastos, ataques cibernéticos a uma infraestrutura crítica e custo de construir algo que concorre com meios de pagamento privados que já funcionam bem. Cada país pesa esses riscos de forma diferente, como mostram os casos a seguir.

Quantos países estudam, quantos lançaram

Há duas fontes de referência, com métodos diferentes.

A pesquisa do BIS feita em 2024 e publicada em agosto de 2025 ouviu 93 bancos centrais. Desses, 91% (85) estavam explorando uma CBDC de varejo, de atacado ou ambas. Os projetos de atacado estavam, em geral, mais avançados que os de varejo. Mais de um terço das jurisdições disse ter acelerado o trabalho por causa das stablecoins e de outros criptoativos (BIS Papers nº 159, agosto de 2025).

O rastreador do Atlantic Council, um think tank (centro de estudos) americano, monitora projetos de forma independente. Em sua atualização de maio de 2026, contava 146 países e uniões monetárias explorando uma CBDC, que somam mais de 98% do PIB mundial. Apenas três haviam lançado uma CBDC de varejo: Bahamas, Jamaica e Nigéria. Outros 41 projetos estavam em fase piloto (Atlantic Council, CBDC Tracker). São dados de uma organização privada de pesquisa, não de uma autoridade oficial.

A distância entre “estudar” e “lançar” é o dado mais revelador. Quase todo banco central acompanha o tema. Pouquíssimos concluíram que vale a pena colocar uma CBDC de varejo nas mãos do público.

Os casos mais acompanhados

Zona do euro: euro digital. O Banco Central Europeu (BCE) ainda não decidiu emitir o euro digital, mas avançou para a fase seguinte do projeto em outubro de 2025. O cronograma do BCE prevê um piloto a partir do segundo semestre de 2027 e prontidão para uma possível primeira emissão em 2029, se a legislação europeia for aprovada até o fim de 2026 (BCE, euro digital). Segundo as perguntas frequentes do BCE, o Conselho da UE fixou sua posição em dezembro de 2025, o Parlamento Europeu em julho de 2026, e as negociações entre as instituições estavam em curso. O desenho proposto tem curso legal, distribuição por bancos e outros prestadores, uso básico gratuito, pagamento off-line com privacidade próxima à do dinheiro em espécie e nenhum juro sobre o saldo. O BCE testou limites hipotéticos de até € 3.000 por pessoa, mas o valor final não estava definido (BCE, perguntas frequentes).

China: e-CNY. O piloto chinês é o maior do mundo, segundo o Atlantic Council. Até o fim de novembro de 2025, o e-CNY somava 3,48 bilhões de transações acumuladas, no valor de 16,7 trilhões de yuans. A partir de 1º de janeiro de 2026, o Banco Popular da China mudou o enquadramento: o e-CNY mantido em carteiras de bancos comerciais passou a ser tratado como depósito bancário, com pagamento de juros conforme as regras de depósito e cobertura do seguro de depósitos (Conselho de Estado da China, dezembro de 2025). Na prática, o e-CNY em bancos deixou de ser uma obrigação direta do banco central, o que o afasta da definição clássica de CBDC de varejo.

Estados Unidos: proibição. Uma ordem executiva assinada em 23 de janeiro de 2025 proibiu as agências federais, salvo exigência legal, de tomar qualquer medida para criar, emitir ou promover uma CBDC nos EUA ou no exterior (Casa Branca, janeiro de 2025). Segundo o Atlantic Council, os EUA são o único país do G20 que não explora uma CBDC.

Reino Unido: decisão pendente. O Banco da Inglaterra e o Tesouro britânico informaram que anunciariam em 2026 se seguem com uma libra digital. Na atualização mais recente da página de notícias do banco, de abril de 2026, a decisão ainda não tinha sido anunciada (Bank of England).

Brasil: Drex. O rastreador do Atlantic Council trata o Drex, projeto do Banco Central do Brasil, como um piloto de crédito tokenizado dentro do movimento por infraestruturas de atacado, e não como uma versão digital do real em espécie para o público. Segundo reportagem do Finsiders Brasil de novembro de 2025, o Banco Central desligou a plataforma de testes do Drex, baseada em blockchain, depois de concluir que ela não atendia aos requisitos de privacidade, e passou a trabalhar em uma nova infraestrutura (Finsiders Brasil, novembro de 2025). A informação é de imprensa especializada; a redação não localizou um comunicado oficial com esses detalhes.

O que isso muda para você

Por enquanto, quase nada no Brasil. Não existe real digital de varejo em circulação. Na avaliação da redação, o Pix já entrega boa parte do que uma CBDC de varejo prometeria em velocidade e custo, o que reduz a pressão por uma.

Se você mora ou faz negócios em países com projetos avançados, três perguntas ajudam a avaliar qualquer proposta: quem verá os dados dos seus pagamentos, quanto você poderá guardar e se haverá juros. Desconfie também de ofertas de “moeda digital do governo” fora dos canais oficiais. Golpes costumam usar nomes de projetos reais.

O que levar deste texto

  • CBDC é dinheiro digital emitido diretamente pelo banco central, na moeda nacional. Não é criptoativo, não é stablecoin e não é sistema de pagamento instantâneo.
  • Quase todos os bancos centrais estudam o tema, mas só três países tinham CBDC de varejo lançada em maio de 2026, segundo o Atlantic Council.
  • O debate gira em torno de privacidade, estabilidade dos bancos e utilidade real. As escolhas variam muito: a zona do euro avança, os EUA proibiram, a China mudou o modelo e o Brasil reformulou o Drex.

Fontes

  1. Central bank digital currencies, Committee on Payments and Market Infrastructures (CPMI) e Markets Committee, BIS. Publicado em 12 de março de 2018 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  2. Annual Economic Report 2021 – III. CBDCs: an opportunity for the monetary system, Bank for International Settlements (BIS). Publicado em 29 de junho de 2021 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  3. Advancing in tandem – results of the 2024 BIS survey on central bank digital currencies and crypto (BIS Papers nº 159), Bank for International Settlements (BIS). Publicado em 22 de agosto de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  4. Central Bank Digital Currency Tracker, Atlantic Council (GeoEconomics Center), think tank. Acesso em 8 de outubro de 2026
  5. Digital euro, Banco Central Europeu (BCE). Acesso em 8 de outubro de 2026
  6. Frequently asked questions on a digital euro, Banco Central Europeu (BCE). Acesso em 8 de outubro de 2026
  7. China to usher in digital deposit money era for e-CNY, Conselho de Estado da China (english.gov.cn), com Xinhua. Publicado em 29 de dezembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  8. Strengthening American Leadership in Digital Financial Technology (Executive Order 14178), The White House. Publicado em 23 de janeiro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  9. Digital pound news, Bank of England. Acesso em 8 de outubro de 2026
  10. BC desliga plataforma Drex e diz que criará nova infraestrutura, Finsiders Brasil. Publicado em 4 de novembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026

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