Criptomoedas e Web3 · Explicador
Layer 1 e layer 2: como as blockchains escalam
Blockchains públicas processam poucas transações para continuar abertas e seguras. As redes de camada 2 tentam resolver isso tirando o trabalho da rede principal, mas trazem riscos próprios.
- Autoria:
- Redação Token & Tech
- Editor responsável:
- Daniel Ferreira
Publicado em · 7 min de leitura
Também disponível em: English
Em três pontos
- Layer 1 é a blockchain principal, que define o consenso e a liquidação final; layer 2 é uma rede construída por cima dela para processar mais transações a menor custo.
- Rollups agrupam transações fora da rede principal e publicam dados nela; os otimistas usam prova de fraude e os de conhecimento zero usam prova de validade.
- Camadas extras trazem riscos próprios, como operadores centralizados, pontes e prazos de saque, e espalham liquidez e ativos por várias redes.
Quando muita gente tenta usar a mesma blockchain ao mesmo tempo, as transações ficam lentas e as taxas sobem. Isso não é um defeito pontual: é consequência de como redes abertas como Bitcoin e Ethereum foram desenhadas. A resposta mais adotada hoje é dividir o trabalho em camadas.
Este texto explica o que são layer 1 e layer 2 (camada 1 e camada 2), por que essa divisão surgiu, como funcionam as principais soluções e quais riscos elas acrescentam. As informações foram conferidas em 8 de outubro de 2026.
O problema: por que blockchains processam pouco
Em uma blockchain pública, cada nó, isto é, cada computador que participa da rede, recebe e confere todas as transações. É isso que permite a qualquer pessoa verificar o registro sem confiar em ninguém. Se quiser rever esse funcionamento, veja Como funciona a blockchain do Bitcoin.
O custo dessa verificação é a capacidade. O artigo que propôs a Lightning Network, publicado em 2016 por Joseph Poon e Thaddeus Dryja, registrava que o Bitcoin suportava menos de 7 transações por segundo com blocos de 1 megabyte. Para chegar ao pico de 47 mil transações por segundo que a Visa havia atingido em 2013, cada bloco teria de ter quase 8 gigabytes, o que nenhum computador doméstico conseguiria acompanhar (Poon e Dryja, 2016). Os números são daquela época e servem para mostrar a ordem de grandeza do problema.
O ponto central do artigo é que blocos gigantes reduziriam o número de pessoas capazes de validar a rede e levariam à centralização. A ethereum.org faz o mesmo raciocínio: aumentar a capacidade da rede principal exigiria nós maiores e hardware especializado, o que diminuiria quem consegue rodar um nó (ethereum.org, camada 2).
Esse dilema costuma ser resumido como a disputa entre descentralização, segurança e escalabilidade. Um boletim do Banco de Compensações Internacionais (BIS), de julho de 2026, descreve exatamente esse equilíbrio entre os três fatores e afirma que ele ajuda a explicar tanto a existência de várias redes de camada 1 quanto a expansão das soluções de camada 2 (BIS, Bulletin 126).
O que é layer 1
Layer 1 é a blockchain principal: a rede que tem seu próprio mecanismo de consenso e onde as transações são liquidadas de forma definitiva. Bitcoin e Ethereum são exemplos. Como as redes chegam a acordo sobre o registro está explicado em Como funcionam os mecanismos de consenso.
Há duas formas de ganhar capacidade. A primeira é mudar a própria camada 1, o que a ethereum.org chama de escalabilidade on-chain: blocos maiores, novas regras de dados, alterações no protocolo. Exige consenso de toda a rede e esbarra no limite que você viu acima. A segunda é processar transações fora dela, a escalabilidade off-chain (ethereum.org, escalabilidade).
O que é layer 2
Layer 2 é uma rede construída por cima de uma camada 1. Ela processa as transações fora da rede principal e usa a camada 1 para registrar resultados e resolver disputas.
O critério que importa é de onde vem a segurança. Para a ethereum.org, uma solução de camada 2 de verdade herda a segurança da rede principal. Outras soluções conversam com o Ethereum, mas têm segurança própria (ethereum.org, escalabilidade):
- Sidechains: blockchains independentes, ligadas à principal por pontes, com regras de consenso próprias. Se os validadores dela falharem, a rede principal não protege você.
- Validiums e plasma: usam provas ligadas ao Ethereum, mas guardam dados fora dele, o que muda as garantias.
Na prática, muitos serviços se apresentam como “L2” sem atender a esse critério. Vale perguntar sempre: se o operador sumir, consigo recuperar meus fundos pela rede principal?
Rollups: a solução dominante no Ethereum
Rollups executam as transações fora da camada 1, agrupam muitas delas em lotes e publicam os dados na rede principal. Como os dados ficam na camada 1, qualquer pessoa pode reconstruir o estado da rede e contestar erros. Segundo a ethereum.org, os rollups se tornaram o principal caminho de escalabilidade do Ethereum (ethereum.org, escalabilidade). O papel deles na estratégia do Ethereum também aparece em O que é Ethereum e como funciona.
Existem dois tipos principais.
Rollups otimistas. Partem do princípio de que os lotes são válidos. Depois que um lote é publicado, abre-se um prazo em que qualquer um pode contestá-lo com uma prova de fraude, que demonstra o erro na rede principal. Quem publicou um lote errado perde a garantia que depositou. A segurança depende de existir pelo menos um participante honesto vigiando. O custo para você aparece no saque: para levar fundos de volta ao Ethereum, é preciso esperar o fim do prazo de contestação, de cerca de sete dias. Há quem pague esse saque antes, mediante taxa (ethereum.org, rollups otimistas).
Rollups de conhecimento zero (ZK-rollups). Junto com cada lote, enviam uma prova de validade, um certificado criptográfico de que as transações foram processadas corretamente. Um contrato na camada 1 confere a prova antes de aceitar o lote. Por isso não há prazo de contestação, e o saque é liberado assim que a prova é verificada. As desvantagens: gerar provas exige muito processamento, às vezes hardware especializado, o que pode concentrar a operação em poucos participantes, e adaptar programas complexos do Ethereum a esse formato é tecnicamente difícil (ethereum.org, ZK-rollups).
A camada 1 também mudou para ajudar
Os rollups pagam para publicar dados no Ethereum, e esse era um de seus maiores custos. A proposta EIP-4844 criou um tipo de transação com blobs, blocos de dados mais baratos que ficam disponíveis por cerca de 18 dias e depois podem ser apagados pelos nós. A ideia é que os dados precisam existir apenas pelo tempo necessário para que participantes honestos reconstruam o estado do rollup (EIP-4844). A atualização Fusaka, de dezembro de 2025, trouxe o PeerDAS, que segundo a ethereum.org torna mais eficiente a publicação e a recuperação desses dados (ethereum.org, camada 2).
Canais de pagamento: a Lightning Network do Bitcoin
No Bitcoin, a principal solução de camada 2 segue outro desenho. A Lightning Network usa canais de pagamento: duas pessoas registram na blockchain apenas a abertura e o fechamento de um canal e, entre esses dois momentos, trocam pagamentos fora dela, quantas vezes quiserem. Os canais se conectam em rede, e um pagamento pode passar por vários deles até chegar ao destino (Poon e Dryja, 2016).
O próprio artigo aponta riscos. Cada participante precisa vigiar a blockchain, ou delegar a vigilância a terceiros, para impedir que a outra parte tente fechar o canal com um saldo antigo. Se não reagir a tempo, pode perder fundos. Os autores também citam como maior risco sistêmico o fechamento forçado de muitos canais ao mesmo tempo, que poderia congestionar a rede principal.
Os riscos que as camadas extras trazem
Uma camada 2 pode ser mais rápida e barata, mas não é uma versão “sem risco” da rede principal. A própria ethereum.org afirma que a segurança de uma L2 depende da tecnologia, da segurança dos contratos e da maturidade do projeto, e recomenda começar com valores pequenos (ethereum.org, camada 2).
Os principais pontos de atenção:
- Operador centralizado. Muitos rollups dependem de um único sequenciador, o operador que ordena e publica as transações. Ele pode influenciar a ordem das operações, ficar fora do ar ou deixar de incluir transações. Alguns rollups permitem enviar a transação direto pela camada 1 para contornar o bloqueio, mas o recurso varia de rede para rede (ethereum.org, rollups otimistas).
- Pontes. Mover ativos entre redes exige pontes, que são contratos e operadores adicionais. O BIS observa que pontes e emissões em várias redes reduzem atritos, mas criam novas dependências de confiança, governança e resiliência operacional (BIS, Bulletin 126).
- Fragmentação. Com muitas camadas 1 e 2, a infraestrutura, a liquidez e os ativos ficam divididos entre redes, segundo o mesmo boletim. Um token numa L2 pode não ser o mesmo que o “mesmo” token em outra.
- Contratos atualizáveis. Na avaliação da redação, este é um ponto pouco visível: muitas L2 são controladas por contratos que seus administradores podem alterar. Quem tem essa chave tem poder sobre os fundos.
- Prazos de saque. Em rollups otimistas, sair pela via oficial leva cerca de uma semana.
- Erros de rede. Enviar ativos para o endereço certo na rede errada pode tornar a recuperação difícil ou impossível. Antes de transferir, confira em qual rede a plataforma ou carteira opera. A escolha entre carteiras está em Carteiras de criptomoedas: custodial e não custodial.
Como em qualquer criptoativo, os tokens que circulam nessas redes podem perder todo o valor, e as transações em geral não têm estorno.
O que levar deste texto
- Layer 1 é a blockchain que define o consenso e a liquidação final; layer 2 processa transações fora dela e usa a camada 1 como âncora.
- Rollups otimistas confiam em contestação por prova de fraude e têm saque lento; ZK-rollups usam prova de validade e exigem processamento pesado. No Bitcoin, a Lightning Network usa canais de pagamento.
- Mais capacidade vem com novos pontos de confiança: sequenciadores, pontes, contratos atualizáveis e liquidez fragmentada entre redes.
Fontes
- Scaling, ethereum.org. Acesso em 8 de outubro de 2026
- Intro to Ethereum Layer 2: benefits and uses, ethereum.org. Acesso em 8 de outubro de 2026
- Optimistic Rollups, ethereum.org. Acesso em 8 de outubro de 2026
- Zero-Knowledge Rollups, ethereum.org. Acesso em 8 de outubro de 2026
- EIP-4844: Shard Blob Transactions, Ethereum Improvement Proposals. Publicado em 25 de fevereiro de 2022 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- The Bitcoin Lightning Network: Scalable Off-Chain Instant Payments (draft 0.5.9.2), Joseph Poon e Thaddeus Dryja. Publicado em 14 de janeiro de 2016 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Blockchain consensus mechanisms and fragmentation (BIS Bulletin 126), Bank for International Settlements (BIS). Publicado em 6 de julho de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Este artigo é educativo e informativo. Não é recomendação personalizada de compra, venda ou manutenção de nenhum ativo. Criptoativos e ativos tokenizados têm riscos, inclusive de perda total; as regras mudam de um país para outro.