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O que é Ethereum e como funciona

O Ethereum é uma blockchain em que qualquer pessoa pode publicar programas que rodam do mesmo jeito em milhares de computadores. Veja como as peças funcionam e onde estão os riscos.

Editor responsável:
Daniel Ferreira

Publicado em · 9 min de leitura

Também disponível em: English

Em três pontos

  • O Ethereum é uma blockchain programável: além de transferir ether, ela executa contratos inteligentes, programas públicos que rodam na Máquina Virtual Ethereum (EVM).
  • Cada operação consome gas, pago em ether; parte da taxa é queimada. Desde 15/09/2022, a rede usa prova de participação, com validadores que depositam ETH como garantia.
  • Não há teto fixo de oferta como no Bitcoin, e os riscos vão além do preço: falhas em contratos, staking com terceiros, redes de camada 2 e transações irreversíveis.

Quando se fala em criptomoedas, o Bitcoin costuma ser a primeira referência. O Ethereum aparece logo depois, mas com uma proposta diferente: em vez de ser principalmente um sistema de pagamentos, ele foi desenhado para executar programas.

Este texto explica o que é o Ethereum, como suas peças funcionam (contas, máquina virtual, contratos, taxas e consenso), como a rede mudou desde o lançamento e quais riscos você deve conhecer. Se quiser comparar com o Bitcoin, veja também o guia sobre o que é Bitcoin.

Ethereum em uma frase

O Ethereum é uma blockchain programável: um registro compartilhado, mantido por uma rede de computadores, que guarda não só saldos, mas também programas e os dados desses programas.

Sua moeda nativa é o ether (ETH). O ether foi introduzido em 2015, junto com o lançamento da rede, e é usado para pagar taxas e para o staking, o depósito que protege a rede (ethereum.org, ether). A primeira versão em produção, chamada Frontier, entrou no ar em 30 de julho de 2015, voltada sobretudo a desenvolvedores (ethereum.org, histórico de atualizações).

É comum ouvir “Ethereum” e “ether” como sinônimos. Neste texto, Ethereum é a rede e ether é a moeda.

De onde veio a ideia

O whitepaper do Ethereum, de 2014, propôs uma blockchain com uma linguagem de programação “Turing-completa” embutida. Na prática, isso significa uma linguagem capaz de expressar qualquer lógica computável, para que qualquer pessoa pudesse escrever regras próprias de transferência de valor (whitepaper do Ethereum).

O documento parte das limitações da linguagem de scripts do Bitcoin. Entre elas, a ausência de laços de repetição gerais, a dificuldade de controlar valores parciais, a falta de estado persistente entre etapas e a impossibilidade de ler dados da própria blockchain, como o horário de um bloco.

A própria ethereum.org avisa que o whitepaper é um documento histórico. Ele não reflete o Ethereum atual, que mudou para prova de participação em 2022 e passou a se apoiar em redes de camada 2.

A especificação técnica formal fica em outro documento, o Yellow Paper, de Gavin Wood. Ele descreve o Ethereum como uma máquina de transações com estado compartilhado (Yellow Paper, versão Shanghai). A versão consultada pela redação é de fevereiro de 2025.

Contas: quem guarda o quê

Tudo no Ethereum gira em torno de contas. Há dois tipos (ethereum.org, contas):

  • Conta de propriedade externa. Controlada por quem tem a chave privada, o segredo criptográfico que autoriza transações. Criar uma é gratuito, e só ela pode iniciar uma transação.
  • Conta de contrato. Controlada por código, não por uma pessoa. Criá-la custa taxa, porque ocupa armazenamento na rede, e ela só age em resposta a uma transação recebida.

Cada conta tem um saldo, medido em wei (1 ETH equivale a 10¹⁸ wei), e um contador de transações chamado nonce, que impede que a mesma transação seja reaproveitada. Contas de contrato também guardam o código e o armazenamento do programa.

Uma distinção útil: conta não é carteira. A carteira é o aplicativo que você usa para gerenciar a conta. Quem tem a chave privada controla a conta, qualquer que seja o aplicativo.

A Máquina Virtual Ethereum

A ethereum.org descreve o Ethereum como uma máquina de estados distribuída, e não apenas como um livro-razão. O “estado” é a fotografia de todas as contas, saldos e dados de programas num dado momento (ethereum.org, EVM).

A cada bloco, um conjunto de transações válidas leva o estado anterior a um novo estado, de forma determinística: dadas as mesmas entradas, todos os computadores da rede chegam ao mesmo resultado. As regras dessa transição são definidas pela Máquina Virtual Ethereum (EVM, na sigla em inglês).

Os programas são escritos em linguagens como Solidity, compilados para bytecode (instruções de baixo nível) e guardados na conta do contrato. Quando alguém chama o contrato, cada nó da rede executa esse bytecode na sua cópia da EVM. Existem várias implementações independentes da EVM, e todas precisam seguir a especificação do Yellow Paper.

Contratos inteligentes

Um contrato inteligente é um programa que vive num endereço da blockchain, com funções e dados próprios (ethereum.org, contratos inteligentes). A analogia clássica, atribuída a Nick Szabo, é a de uma máquina de vendas automática: com a entrada certa, o resultado é garantido pelas regras embutidas na máquina.

Três características ajudam a entender por que eles importam:

  • Publicação sem permissão. Qualquer pessoa com ether suficiente para a taxa pode publicar um contrato.
  • Composição. Contratos são públicos e podem chamar uns aos outros, como peças de montar. É daí que surgem aplicações financeiras, de tokens e de governança construídas umas sobre as outras.
  • Imutabilidade por padrão. Um contrato publicado não pode ser apagado por padrão, e as interações com ele são irreversíveis.

Há limites. Um contrato não acessa diretamente informações do mundo real, como uma cotação ou o resultado de um jogo. Isso é intencional, porque dados externos poderiam quebrar o consenso. Para isso existem os oráculos, serviços que levam dados externos para a blockchain e que acrescentam uma camada própria de confiança.

Gas: o preço de usar a rede

Cada operação na EVM consome uma quantidade de gas, a unidade que mede trabalho computacional. Você paga esse gas em ether. A cobrança existe para evitar abusos, como programas em laço infinito, e acontece mesmo se a transação falhar (ethereum.org, gas).

A taxa é calculada assim: gas usado × (taxa-base + gorjeta).

  • Taxa-base. Definida pelo protocolo para cada bloco. Ela sobe quando o bloco anterior ficou acima da meta de ocupação e desce quando ficou abaixo, com variação máxima de 12,5% por bloco. Essa parte é queimada, ou seja, retirada de circulação.
  • Gorjeta. Vai para o validador que inclui a transação e serve para sinalizar urgência.

Os preços costumam ser expressos em gwei, um bilionésimo de ether. No exemplo da própria documentação, uma transferência simples de ETH usa 21.000 de gas; com taxa-base de 10 gwei e gorjeta de 2 gwei, ela custa 0,000252 ETH. O valor em reais depende do preço do ether e da demanda pela rede no momento, e muda o tempo todo.

Esse modelo de taxa-base com queima foi introduzido na atualização London, em 5 de agosto de 2021, pela proposta EIP-1559 (ethereum.org, histórico de atualizações).

Prova de participação e The Merge

Uma blockchain precisa de um método para a rede concordar sobre qual é o próximo bloco, o chamado mecanismo de consenso. O Ethereum nasceu usando prova de trabalho, como o Bitcoin, com mineradores gastando energia.

Em 15 de setembro de 2022, com o evento chamado The Merge, a rede passou para prova de participação. A camada de consenso que assumiu a produção de blocos, a Beacon Chain, já funcionava em paralelo desde 1º de dezembro de 2020. A ethereum.org estima que a mudança reduziu o consumo de energia da rede em cerca de 99,95% (ethereum.org, The Merge).

Na prova de participação, segundo a documentação (ethereum.org, prova de participação):

  • Validadores depositam 32 ETH como garantia e rodam software que verifica e propõe blocos.
  • O tempo é dividido em slots de 12 segundos, e 32 slots formam uma época. Em cada slot, um validador é sorteado para propor o bloco.
  • Um bloco se torna final, isto é, praticamente irreversível, quando validadores que somam ao menos dois terços do ETH depositado votam a favor. Reverter um bloco final exigiria destruir pelo menos um terço de todo o ETH depositado.
  • Quem age de forma maliciosa, por exemplo votando em duas versões conflitantes, sofre slashing: perde parte do depósito e é removido. Ficar fora do ar gera penalidades menores.

The Merge também tem limites que costumam ser mal entendidos. Ela não reduziu as taxas, porque não aumentou a capacidade da rede, nem acelerou as transações de forma relevante. Os saques do staking só foram liberados depois, na atualização Shapella, em abril de 2023.

Quanto ether existe

Aqui está uma diferença central em relação ao Bitcoin. O Bitcoin tem emissão programada que cai pela metade a cada 210 mil blocos, o halving do Bitcoin, e se aproxima de um total de 21 milhões. O Ethereum não tem esse teto fixo. A ethereum.org fala em “mecânica de oferta dinâmica” (ethereum.org, ether).

Duas forças atuam em sentidos opostos (ethereum.org, emissão após The Merge):

  • Emissão. Novos ETH são criados como recompensa para os validadores.
  • Queima. A taxa-base de cada transação é destruída.

Quando o uso da rede é alto, a queima pode superar a emissão e a oferta diminui. Quando o uso é baixo, a oferta cresce. Não há como saber com antecedência qual efeito vai prevalecer, porque isso depende da demanda pela rede.

Camada 2 e as atualizações recentes

Aumentar diretamente a capacidade da rede principal exigiria computadores mais potentes para rodar um nó, o que reduziria o número de participantes. A estratégia escolhida foi outra: tornar o Ethereum uma boa camada de liquidação e deixar boa parte da atividade para redes de camada 2 (L2), construídas por cima dele (ethereum.org, camada 2).

As L2 que publicam seus dados na rede principal costumam ser chamadas de rollups. Elas agrupam muitas transações e registram o resultado no Ethereum, o que reduz o custo por transação. Não existe L2 “oficial”: qualquer um pode criar uma, e os desenhos variam.

As atualizações dos últimos anos seguem essa direção, segundo o histórico da ethereum.org:

  • Dencun (13/03/2024): introduziu um espaço de dados mais barato para rollups (EIP-4844).
  • Pectra (07/05/2025): mudou regras de staking e permitiu que contas comuns executem código parecido com o de contratos (EIP-7702).
  • Fusaka (03/12/2025): trouxe o PeerDAS, que, segundo a página de camada 2, ajuda as L2 a publicar e recuperar dados na rede de forma mais eficiente.

A próxima atualização planejada se chama Glamsterdam. Até a última atualização da página consultada, ela não tinha data definida.

Riscos que você precisa conhecer

O Ethereum tem riscos que vão além da oscilação de preço:

  • Volatilidade e perda total. O ether pode perder grande parte do valor, ou todo ele, em pouco tempo.
  • Falhas em contratos. Código publicado com erro pode ser explorado, e as transações não têm estorno. A ethereum.org lembra o ataque ao The DAO, em que 3,6 milhões de ETH foram desviados, e um caso da carteira Parity em que mais de US$ 300 milhões em ETH ficaram travados permanentemente. A documentação estima as perdas por falhas de segurança em contratos em “facilmente mais de US$ 1 bilhão” (ethereum.org, segurança de contratos).
  • Staking com terceiros. Validar por conta própria expõe você a penalidades e slashing. Delegar a um provedor, usar um pool ou deixar o ETH numa corretora acrescenta risco de contraparte e, no caso das corretoras, entrega a custódia a ela. A ethereum.org classifica as corretoras como a opção com maiores pressupostos de confiança (ethereum.org, staking).
  • Redes de camada 2. A segurança de cada L2 depende da tecnologia, da qualidade dos contratos e da maturidade do projeto. A própria ethereum.org recomenda pesquisar antes e começar com valores pequenos.
  • Custo imprevisível. Em momentos de alta demanda, a taxa-base sobe bloco a bloco, e uma operação pode ficar bem mais cara do que você esperava. Se a transação falhar, o gas consumido não volta.
  • Chave privada. Quem tem a chave controla a conta. Se ela for perdida ou roubada, não existe central de atendimento que reverta o problema.

O que levar deste texto

  • O Ethereum é uma blockchain programável. A EVM executa contratos inteligentes do mesmo jeito em todos os nós, e o ether paga o uso da rede.
  • Cada operação consome gas. A taxa-base é queimada e a gorjeta vai para o validador.
  • Desde The Merge, em 15/09/2022, a segurança vem de validadores que depositam ETH e podem perdê-lo se agirem mal.
  • Não há teto fixo de oferta: emissão e queima disputam o saldo, conforme o uso da rede.
  • Os riscos incluem falhas de código irreversíveis, intermediários no staking, maturidade desigual das L2 e perda de chaves, além da volatilidade do preço.

Fontes

  1. Ethereum Whitepaper, ethereum.org. Acesso em 8 de outubro de 2026
  2. Ethereum: A Secure Decentralised Generalised Transaction Ledger (Shanghai version), Gavin Wood (Ethereum Yellow Paper). Publicado em 4 de fevereiro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  3. Ethereum accounts, ethereum.org. Publicado em 6 de agosto de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  4. Ethereum Virtual Machine (EVM), ethereum.org. Publicado em 26 de julho de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  5. Gas and fees, ethereum.org. Publicado em 24 de junho de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  6. Introduction to smart contracts, ethereum.org. Publicado em 25 de fevereiro de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  7. Proof-of-stake (PoS), ethereum.org. Publicado em 31 de agosto de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  8. The Merge, ethereum.org. Publicado em 15 de maio de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  9. Timeline of all Ethereum forks, ethereum.org. Publicado em 26 de junho de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  10. How The Merge impacted ETH supply, ethereum.org. Publicado em 6 de junho de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  11. What is ether (ETH)?, ethereum.org. Publicado em 6 de agosto de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  12. Layer 2, ethereum.org. Publicado em 6 de outubro de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  13. Ethereum staking, ethereum.org. Publicado em 12 de fevereiro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  14. Smart contract security, ethereum.org. Publicado em 26 de fevereiro de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026

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