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Drex: proposta, arquitetura e estágio do projeto

O Drex nasceu como a plataforma do Banco Central para dinheiro e ativos tokenizados. O piloto expôs um problema de privacidade que a tecnologia testada não resolveu, e o projeto mudou de rumo. Veja o que era, o que foi testado e em que pé está.

Editor responsável:
Daniel Ferreira

Publicado em · 9 min de leitura

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Em três pontos

  • O desenho testado tinha duas camadas: Drex de atacado, emitido pelo BC para as instituições, e Drex de varejo, depósitos e moeda eletrônica tokenizados emitidos por bancos e instituições de pagamento.
  • Os testes mostraram que as soluções de privacidade disponíveis não estavam maduras; o BC concluiu que só avançaria com soluções que garantissem privacidade, proteção de dados e segurança.
  • Em outubro de 2026, a página oficial dá a fase 2 como encerrada, com relatório em construção; a nova etapa sem blockchain foi descrita pela imprensa, sem data oficial de entrega.

Desde 2023, o nome Drex aparece em manchetes como “o real digital”, às vezes com promessas de que ele substituiria o dinheiro ou o Pix. Nenhuma das duas coisas aconteceu. O projeto do Banco Central do Brasil (BC) testou uma plataforma por cerca de dois anos, encontrou um obstáculo sério de privacidade e foi redesenhado.

Este texto explica a proposta original, a arquitetura que foi testada no piloto, o que os relatórios oficiais concluíram e o que se sabe do estágio atual, com a data de cada informação. Quando o dado vier de reportagem, e não de documento do BC, isso estará dito.

O que o Drex se propunha a ser

Segundo a página oficial do projeto, o Drex permitiria transações com ativos digitais liquidadas dentro de uma plataforma do próprio BC, um “ambiente integrado e padronizado”. O acesso seria sempre por um intermediário autorizado, como um banco, que levaria o dinheiro da sua conta para uma carteira Drex.

A página usa um exemplo simples: a compra de um carro. Hoje, comprador e vendedor desconfiam um do outro, porque alguém precisa agir primeiro. Na proposta do Drex, um contrato inteligente (programa que executa regras automaticamente quando as condições são cumpridas) faria o dinheiro e a propriedade trocarem de mãos ao mesmo tempo. Se uma parte falhasse, tudo voltaria ao estado anterior.

Esse mecanismo tem nome técnico: entrega contra pagamento (DvP, na sigla em inglês). Quando a troca é indivisível, ou acontece inteira ou não acontece, fala-se em liquidação atômica. É a ideia central da tokenização de ativos, tema que o Token & Tech explica em como funciona a tokenização de imóveis.

O BC também explica o nome. As letras “d” e “r” remetem a real digital, o “e” vem de eletrônico e o “x” sugere conexão, como no Pix.

Um ponto importante: o Drex foi classificado como moeda digital de banco central (CBDC, na sigla em inglês), mas não como um “dinheiro digital” que você guardaria direto no BC. Para entender as variações desse conceito pelo mundo, veja o que são CBDCs.

A arquitetura testada: atacado e varejo

O relatório da fase 1 do piloto, publicado pelo BC em fevereiro de 2025, descreve o desenho em duas camadas.

Drex de atacado. É a parte que seria, de fato, moeda do banco central. O BC a emitiria para as instituições que já têm conta com ele. Na prática, seria a versão em token das reservas bancárias, das contas de liquidação e da Conta Única do Tesouro Nacional.

Drex de varejo. É a parte que chegaria ao cliente. Não seria emitida pelo BC, e sim por bancos e instituições de pagamento: versões tokenizadas de depósitos à vista e de moeda eletrônica, na proporção de um para um com o real. O relatório explica a escolha: manter a intermediação financeira e a capacidade de os bancos concederem crédito.

Esse modelo se aproxima do que o Banco de Compensações Internacionais (BIS) chamou de livro-razão unificado (unified ledger): uma plataforma programável onde dinheiro do banco central, depósitos tokenizados (dinheiro privado emitido por bancos, que continua sendo um direito contra o banco emissor) e outros ativos tokenizados convivem. No relatório anual de 2023 do BIS, a moeda do banco central nesse arranjo cumpre papel parecido com o das reservas no sistema atual: é a âncora que dá liquidação final às operações.

Como funcionaria uma transferência entre clientes de bancos diferentes? Segundo o relatório da fase 1, em três passos simultâneos:

  1. o banco do pagador “queima” (retira de circulação) o Drex de varejo do cliente;
  2. o banco do pagador transfere o valor equivalente em Drex de atacado para o banco do recebedor;
  3. o banco do recebedor emite Drex de varejo na carteira do cliente que recebe.

Tecnicamente, o piloto rodou em uma rede de registro distribuído (DLT, na sigla em inglês, a família de tecnologias a que pertence a blockchain) baseada no Hyperledger Besu, compatível com a Ethereum. A rede tinha 26 nós (computadores que mantêm cópias do registro) operados pelo BC e pelos participantes. Se você quiser entender a base técnica, veja o que é Ethereum.

Fase 1: o teste da privacidade

As diretrizes do piloto foram aprovadas pelo Voto 31/2023-BCB, de 14 de fevereiro de 2023, e o regulamento veio com a Resolução BCB 315, de 27 de abril de 2023, conforme a página do Piloto Drex. O BC começou a incorporar os participantes em julho de 2023. Foram 16 consórcios ou empresas, com bancos de vários portes, cooperativas, instituições de pagamento e empresas de tecnologia, cerca de 70 participantes no total, segundo a abertura da 5ª plenária do Fórum Drex, em novembro de 2024. Usuários finais não participaram; suas operações eram simuladas.

O caso de uso da fase 1 foi um só: compra e venda de título público federal tokenizado entre clientes de instituições diferentes, com entrega contra pagamento. A escolha não foi por acaso. Esse tipo de operação obriga vários participantes a trocar informações, o que coloca a privacidade no centro do teste.

O problema tem nome no relatório: o trilema entre privacidade, programabilidade e descentralização. Em uma rede compartilhada, os participantes conseguem ver as transações registradas. Mas o sistema financeiro brasileiro precisa respeitar o sigilo bancário (Lei Complementar 105/2001) e a Lei Geral de Proteção de Dados, como o próprio relatório lembra ao citar as diretrizes do projeto.

O BC testou quatro soluções de privacidade baseadas em provas de conhecimento zero (técnicas criptográficas que permitem provar que uma informação é válida sem revelá-la) e em segregação de redes: Anonymous Zether, Starlight, Rayls e Microsoft Nova ZKP.

A conclusão do relatório foi direta. As soluções avançaram na anonimização, mas “apresentam limitações que comprometem, no momento, sua adoção”. O texto aponta “a falta de controle pelas autoridades sobre os tokens e as limitações na programabilidade e na componibilidade” e afirma que o estado das soluções “carece de maturidade” para os requisitos de um sistema financeiro robusto.

Em maio de 2025, o diretor do BC Renato Dias de Brito Gomes deu um número para esse custo em discurso publicado pelo BIS: com uma das soluções de privacidade testadas, o Drex processava menos de 10 transações por segundo. Ele chamou o problema de “trilema da privacidade”: é difícil obter, ao mesmo tempo, privacidade, escala e programabilidade. Na avaliação da redação, um sistema de pagamentos de massa, como o Pix, não funcionaria com esse limite.

Fase 2: casos de uso do mercado

A segunda fase começou em setembro de 2024, com 13 temas escolhidos entre 42 propostas, segundo notícia do BC. A ideia era testar serviços financeiros criados por terceiros, por meio de contratos inteligentes, e incluir ativos regulados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Os temas incluíam crédito com garantia em CDB e em títulos públicos, cessão de recebíveis, câmbio, debêntures, ativos do agronegócio, créditos de descarbonização, imóveis e automóveis.

Em fevereiro de 2025, ao publicar o relatório da fase 1, o BC informou que não incluiria novos casos na fase 2, apesar de ter recebido 101 propostas. A nota oficial diz que o piloto “se mostrou desafiante do ponto de vista tecnológico” e que o BC “só avançará nas soluções que garantam privacidade, proteção de dados e segurança das transações”.

No mesmo discurso de maio de 2025, Gomes afirmou que os primeiros resultados da fase 2 confirmavam o potencial da entrega contra pagamento com liquidação atômica. Mas disse também que, no curto prazo, o BC ficaria “agnóstico” em tecnologia, melhorando a infraestrutura existente, e manteria flexibilidade para migrar para um livro-razão unificado em DLT “quando chegar a hora”.

A mudança de rumo de 2025

Esta parte depende de reportagens, porque a redação não localizou nota oficial do BC com o detalhamento da decisão. Os veículos são citados um a um.

Em agosto de 2025, segundo a Exame, o coordenador do Drex no BC, Fabio Araujo, disse ao jornal Valor Econômico que as soluções de privacidade testadas eram boas, mas aparentemente insuficientes. O projeto seria dividido em uma parte de longo prazo, com DLT, e uma parte de curto prazo, sem DLT, voltada à reconciliação de gravames: a checagem de quais bens já estão dados em garantia de crédito, e onde. A previsão citada era o segundo semestre de 2026.

Em 4 de novembro de 2025, o Finsiders Brasil noticiou que o BC havia comunicado aos participantes, em reunião, que desligaria a plataforma do piloto em 10 de novembro e começaria a construir uma nova infraestrutura, definindo primeiro os casos de uso e depois a tecnologia.

Em dezembro de 2025, a Exame registrou declarações do presidente do BC, Gabriel Galípolo. Segundo ele, a tecnologia testada “não se mostrou viável”, mas o projeto não foi abandonado: “Hoje existem outras maneiras de atingir o que a gente quer”. A reportagem descreve a nova etapa como um ambiente interoperável de ativos tokenizados, liquidados em moeda emitida pela autoridade monetária.

Em que pé está, em outubro de 2026

O que é oficial, conferido em 8 de outubro de 2026:

  • a página do Piloto Drex lista a fase 1 e a fase 2 como “Encerrada”;
  • o relatório da fase 2 aparece como “em construção”;
  • a página do projeto ainda descreve o Drex no futuro (“vai permitir”), com o mesmo desenho de plataforma integrada.

O que a redação não encontrou: comunicado oficial com data de entrega, escopo final ou tecnologia da nova etapa, nem confirmação de que a reconciliação de gravames já esteja em operação. A previsão de segundo semestre de 2026 vem de reportagens de 2025 e deve ser lida como plano relatado, não como fato.

Por isso, desconfie de qualquer texto que trate o desenho de 2023 (carteira Drex para o cidadão, varejo tokenizado em DLT) como o plano atual. Ele foi o plano testado no piloto, e o próprio BC concluiu que a tecnologia não atendia aos requisitos.

O que isso significa para você

Primeiro, não existe Drex para comprar, investir ou “ativar”. O projeto nunca chegou ao público, e a etapa em discussão é de infraestrutura entre instituições. Mensagens que pedem cadastro, depósito ou dados para “receber seu Drex” são golpe. O guia de golpes financeiros digitais mostra como reagir.

Segundo, a tokenização de ativos continua avançando fora do Drex, em iniciativas privadas e reguladas. Isso não elimina riscos de emissor, de liquidez ou jurídicos, como explica tokenização não elimina risco.

Terceiro, a comparação com outras formas de dinheiro digital ajuda a separar conceitos. Stablecoins são emitidas por empresas privadas; CBDCs, por bancos centrais. As diferenças estão em stablecoins versus CBDC. E serviços financeiros embutidos em aplicativos não financeiros seguem outra lógica, explicada em embedded finance.

O que levar deste texto

  • O Drex foi desenhado como uma plataforma do BC com duas camadas: atacado, emitido pelo BC para instituições, e varejo, depósitos e moeda eletrônica tokenizados emitidos por bancos e instituições de pagamento.
  • O piloto, em rede Hyperledger Besu, mostrou que as soluções de privacidade testadas não estavam maduras para o sigilo bancário e a proteção de dados exigidos no Brasil.
  • Em outubro de 2026, as duas fases do piloto constam como encerradas. A nova etapa, sem blockchain e focada em garantias de crédito, foi relatada pela imprensa, mas não tem data oficial divulgada.

Fontes

  1. Drex – Real Digital, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
  2. Piloto Drex, Banco Central do Brasil (BR). Acesso em 8 de outubro de 2026
  3. Relatório do Piloto Drex – Fase 1, Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 26 de fevereiro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  4. Banco Central divulga relatório da primeira fase do Piloto Drex e chamada para a segunda etapa, Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 26 de fevereiro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  5. Banco Central inicia segunda fase do Piloto Drex, Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 23 de setembro de 2024 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  6. 5ª Plenária do Fórum Drex – apontamentos introdutórios, Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 27 de novembro de 2024 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  7. Renato Dias de Brito Gomes: discurso no Digital Money Summit 2025 (Drex), Bank for International Settlements (Central bankers' speeches). Publicado em 29 de maio de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  8. III. Blueprint for the future monetary system: improving the old, enabling the new, Bank for International Settlements (Annual Economic Report 2023). Publicado em 25 de junho de 2023 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  9. Drex reduz uso de tecnologia blockchain e pode ter lançamento em 2026, Exame. Publicado em 7 de agosto de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  10. BC desliga plataforma Drex e diz que criará nova infraestrutura, Finsiders Brasil. Publicado em 4 de novembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  11. O que vai acontecer com o Drex em 2026? Mudanças abrem nova fase do projeto, Exame. Publicado em 30 de dezembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Este artigo é educativo e informativo. Não é recomendação personalizada de compra, venda ou manutenção de nenhum ativo. Criptoativos e ativos tokenizados têm riscos, inclusive de perda total; as regras mudam de um país para outro.

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