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O que são stablecoins e como mantêm seu valor
Stablecoins são criptoativos feitos para valer sempre o mesmo que uma moeda, quase sempre o dólar. Veja o que sustenta essa promessa, em que situações ela já se rompeu e quais riscos ficam com quem usa.
- Autoria:
- Redação Token & Tech
- Editor responsável:
- Daniel Ferreira
Publicado em · 9 min de leitura
Também disponível em: English
Em três pontos
- Uma stablecoin é um token em blockchain que promete valer um valor fixo em moeda, sustentado por reservas e pelo direito de resgate junto ao emissor.
- A paridade não é garantida: TerraUSD, sem reservas, perdeu quase todo o valor em 2022; o USDC chegou a 86 centavos em 2023 quando parte das reservas ficou presa em um banco que quebrou.
- EUA, União Europeia e Brasil passaram a regular o tema por caminhos diferentes; no Brasil, comprar e vender stablecoins em corretoras entrou no mercado de câmbio.
Bitcoin e ether mudam de preço o tempo todo. Para quem quer só mover dinheiro pela blockchain, essa oscilação atrapalha. As stablecoins surgiram para resolver isso: um token que circula como qualquer criptoativo, mas que tenta valer sempre a mesma coisa, em geral um dólar.
A ideia parece simples. O difícil é cumprir a promessa em qualquer cenário. Este texto explica como ela é sustentada, por que já falhou e o que as regras mais recentes exigem dos emissores.
O que é uma stablecoin
Uma stablecoin (moeda estável, em tradução livre) é um token registrado em uma blockchain que promete manter valor fixo em relação a uma moeda oficial. O Banco de Compensações Internacionais (BIS), organismo que reúne bancos centrais, descreve a promessa como a de “sempre valer um valor fixo em moeda fiduciária” (BIS, Relatório Econômico Anual 2025). Moeda fiduciária é o dinheiro emitido por um Estado, como o real ou o dólar.
Segundo o mesmo relatório, mais de 99% das stablecoins são denominadas em dólar, e o crescimento do mercado se concentra nas duas maiores, o USDT, da Tether, e o USDC, da Circle. As diferenças entre as duas têm um artigo próprio: USDT versus USDC: mecanismos, reservas e riscos.
Na prática, stablecoins servem para três coisas: guardar saldo em dólar dentro do ambiente cripto, pagar e transferir valor entre países e servir de moeda de troca em corretoras e aplicações. Elas funcionam sobre redes como a do Ethereum, em que um contrato inteligente controla a criação e a destruição dos tokens.
A promessa de paridade e o que a sustenta
Paridade (peg, em inglês) é a relação fixa de um para um entre o token e a moeda de referência. No modelo mais comum, ela se apoia em dois mecanismos.
O primeiro são as reservas. Para cada token emitido, o emissor guarda ativos de valor equivalente, como dinheiro em banco e títulos de curto prazo do governo americano. A Circle, por exemplo, informa que a maior parte das reservas do USDC fica em um fundo de mercado monetário que aplica em caixa, títulos do Tesouro americano de curto prazo e operações compromissadas (Circle, Transparência). A Tether afirma que seus tokens têm “100% de lastro” nas reservas da empresa (Tether, Transparency).
O segundo é o resgate. Quem tem conta no emissor pode entregar tokens e receber dólares, ou depositar dólares e receber tokens novos. Isso cria um piso e um teto para o preço.
Veja como funciona. Se o token cai para 99 centavos em uma corretora, quem tem acesso ao resgate compra barato e troca por um dólar com o emissor. Se sobe para 1,01, deposita um dólar, recebe um token novo e vende acima. Essa arbitragem empurra o preço de volta para perto de um dólar.
Há um detalhe importante: a maioria das pessoas não negocia com o emissor. Ela compra e vende em corretoras, no chamado mercado secundário, onde o preço pode se afastar da paridade. O BIS lembra que stablecoins são negociadas a uma “taxa de câmbio” que “pode se desviar da paridade” e que boa parte dos detentores provavelmente não é cliente do emissor (BIS, 2025). A promessa vale integralmente para quem pode resgatar. Para os demais, ela depende de que esses arbitradores continuem atuando.
Os principais modelos
Nem toda stablecoin funciona do mesmo jeito. Os modelos mais citados são três.
- Lastro em moeda e títulos. O emissor é uma empresa que guarda reservas fora da blockchain, em bancos, custodiantes e fundos. É o modelo do USDT e do USDC. A estabilidade depende da qualidade das reservas e da confiança no emissor.
- Lastro em outros criptoativos. Os tokens são criados contra depósitos de criptoativos que valem mais do que o emitido (sobrecolateralização), para absorver quedas de preço. O DAI é o exemplo mais conhecido. Mesmo esse desenho pode ser afetado por terceiros: em março de 2023, o DAI caiu abaixo da paridade apesar de continuar sobrecolateralizado, porque parte de seu mecanismo de estabilidade dependia do USDC (Federal Reserve, FEDS Notes, dezembro de 2025).
- Algorítmicas. Não têm reservas equivalentes. Tentam manter o preço ajustando a oferta por regras automáticas, em geral com ajuda de um segundo token. É o modelo que produziu o maior colapso da história do setor.
Quando a paridade falha: dois episódios
TerraUSD, maio de 2022
A TerraUSD (UST) era uma stablecoin algorítmica. Segundo o BIS, ela mantinha o valor ajustando a oferta em uma estratégia automática de arbitragem com outro criptoativo, o Luna, e chegou a valer US$ 18,7 bilhões no pico, como a terceira maior stablecoin (BIS, Relatório Econômico Anual 2022).
Quando o UST ficou abaixo de um dólar, o relatório descreve “uma dinâmica clássica de corrida”: detentores destruíam UST para criar Luna novo e vendê-lo enquanto ainda tinha algum valor. A oferta de Luna explodiu, o preço desabou e, em maio de 2022, o UST passou a valer quase zero. Sem reservas, não havia o que entregar a quem queria sair.
USDC, março de 2023
O segundo caso envolve uma stablecoin com reservas. Na noite de 10 de março de 2023, a Circle informou que não conseguia sacar US$ 3,3 bilhões das reservas do USDC depositados no Silicon Valley Bank (SVB), banco americano que havia entrado em liquidação naquele dia. O valor equivalia a cerca de 8% das reservas.
Segundo nota de economistas do Federal Reserve, o USDC chegou a ser negociado a 86 centavos no pior momento. O preço se recuperou depois que autoridades americanas anunciaram, em 12 de março, que os depositantes do SVB seriam protegidos, e voltou à paridade quando a Circle retomou os resgates no dia 13 (Federal Reserve, 2025). A mesma nota mostra que a queda se espalhou para outras stablecoins ligadas ao USDC.
Os dois casos ensinam coisas diferentes. O primeiro mostra que, sem reservas, a paridade depende só de confiança. O segundo mostra que mesmo reservas em ativos seguros têm riscos: o dinheiro precisa estar disponível no momento em que todos querem sair.
Os riscos de quem usa stablecoins
“Estável” descreve o objetivo, não uma garantia. Os principais riscos são estes:
- Risco de reserva. As reservas podem ser insuficientes, ilíquidas ou aplicadas em ativos que perdem valor. Relatórios de transparência mostram a situação em uma data específica, não a todo momento.
- Risco do emissor. Se a empresa quebrar, sofrer fraude ou bloqueio judicial, o resgate pode atrasar ou ficar menor que o esperado. Stablecoins não têm a garantia de depósitos dos bancos, como o FGC no Brasil.
- Risco de corrida. Quando muitos tentam sair ao mesmo tempo, o preço no mercado secundário pode cair bem abaixo de um dólar, como em 2022 e 2023.
- Risco de congelamento. Emissores de stablecoins com lastro centralizado conseguem bloquear endereços e congelar tokens, por decisão própria ou ordem judicial. Isso protege contra crimes, mas também pode atingir quem não fez nada de errado.
- Risco tecnológico. Falhas no contrato inteligente, na blockchain em que o token circula ou em pontes entre redes podem causar perdas. Tokens enviados ao endereço ou à rede errada costumam ser irrecuperáveis.
- Risco de integridade. O BIS avalia que stablecoins são propensas a falhas de identificação de clientes e atraentes para organizações criminosas, porque circulam em redes públicas e podem ir para carteiras sem supervisão do emissor (BIS, 2025). Isso explica a pressão regulatória e os congelamentos.
- Risco regulatório. Regras novas podem restringir onde e como cada stablecoin é negociada. Na União Europeia, a autoridade de mercados (ESMA) orientou plataformas a deixar de negociar, até o fim do primeiro trimestre de 2025, tokens desse tipo cujo emissor não tivesse autorização no bloco; guardar e transferir esses tokens continuou possível (ESMA, janeiro de 2025).
Golpes também usam stablecoins. Promessas de “rendimento garantido em dólar” com stablecoins merecem a mesma desconfiança de qualquer promessa de ganho garantido.
O que dizem as regras
Em julho de 2023, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB), que reúne autoridades financeiras do G20, publicou dez recomendações para stablecoins de alcance global. Uma das centrais é que os detentores tenham direito legal robusto e resgate no prazo, ao valor de face, quando o token for referenciado em uma única moeda (FSB, julho de 2023). Três jurisdições mostram como isso virou lei.
Estados Unidos: GENIUS Act
A lei conhecida como GENIUS Act (Public Law 119-27) foi sancionada em 18 de julho de 2025. Ela exige que emissores autorizados mantenham reservas de pelo menos um para um em ativos como dinheiro, depósitos, títulos do Tesouro com vencimento de até 93 dias, compromissadas e fundos de mercado monetário de títulos públicos. Também exige publicação mensal da composição das reservas, exame mensal por firma de auditoria registrada, capacidade técnica para cumprir ordens judiciais, proibição de pagar juros a quem só mantém o token e prioridade dos detentores sobre as reservas em caso de insolvência (GENIUS Act, texto oficial).
A vigência não é imediata. Pelo texto, a lei entra em vigor 18 meses após a sanção ou 120 dias depois das regras finais dos reguladores, o que ocorrer antes. Em agosto de 2026, o Departamento do Tesouro tratava 18 de janeiro de 2027 como a “data efetiva esperada” (Tesouro dos EUA, 17 de agosto de 2026).
União Europeia: MiCA
O regulamento europeu de criptoativos, conhecido como MiCA (Regulamento UE 2023/1114), separa dois tipos de stablecoin. Os tokens de moeda eletrônica (EMT) referenciam uma única moeda oficial. Os tokens referenciados a ativos (ART) se apoiam em uma cesta de moedas, commodities ou outros ativos. As regras para os dois tipos se aplicam desde 30 de junho de 2024 (MiCA, art. 149).
Para os EMT, o emissor precisa emitir tokens ao valor de face, mediante recebimento dos recursos, e resgatá-los “a qualquer momento e pelo valor de face” a pedido do detentor (MiCA, art. 49). Ou seja, na União Europeia o direito de resgate vale para todos os detentores, não só para grandes clientes.
Brasil: stablecoins no mercado de câmbio
No Brasil, o Banco Central passou a tratar como câmbio parte das operações com stablecoins feitas por empresas do setor. A Resolução BCB nº 521, de 10 de novembro de 2025, incluiu no mercado de câmbio, a partir de 2 de fevereiro de 2026, a “compra, venda ou troca de ativos virtuais referenciados em moeda fiduciária” feita por prestadoras de serviços de ativos virtuais. Também entram pagamentos internacionais com criptoativos e transferências de ou para carteiras autocustodiadas (Resolução BCB nº 521).
Na prática, segundo o Banco Central, essas operações só podem ser feitas por prestadoras autorizadas a operar no câmbio, que passaram a enviar informações detalhadas sobre elas a partir de maio de 2026 e precisam identificar os donos das carteiras autocustodiadas com que transacionam (Banco Central do Brasil, novembro de 2025). A regra mira as empresas que intermediam. Ela não muda o funcionamento do token nem a situação do emissor estrangeiro.
O que levar deste texto
- Stablecoin é uma promessa de valor fixo. O que a sustenta são as reservas, o direito de resgate e a arbitragem de quem tem acesso a ele.
- Modelos diferentes têm fragilidades diferentes. Algorítmicas dependem só de confiança; as com reservas dependem da qualidade e da disponibilidade desses ativos e da solidez do emissor.
- A paridade já falhou em situações reais. Em momentos de estresse, o preço no mercado pode ficar bem abaixo de um dólar, e a perda pode ser total.
- Regras novas nos EUA, na União Europeia e no Brasil aumentam exigências, mas valem de formas e em prazos diferentes. Antes de usar uma stablecoin, vale saber quem a emite, onde está regulado e quem tem direito de resgatá-la.
Para comparar as duas maiores stablecoins em reservas, resgate e congelamento, leia USDT versus USDC: mecanismos, reservas e riscos.
Fontes
- Annual Economic Report 2025 – III. The next-generation monetary and financial system, Bank for International Settlements (BIS). Publicado em 29 de junho de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Annual Economic Report 2022 – III. The future monetary system (Box A: The collapse of the TerraUSD stablecoin), Bank for International Settlements (BIS). Publicado em 26 de junho de 2022 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- In the Shadow of Bank Runs: Lessons from the Silicon Valley Bank Failure and Its Impact on Stablecoins, Board of Governors of the Federal Reserve System (FEDS Notes) (US). Publicado em 17 de dezembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- High-level Recommendations for the Regulation, Supervision and Oversight of Global Stablecoin Arrangements: Final report, Financial Stability Board (FSB). Publicado em 17 de julho de 2023 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Public Law 119-27 – Guiding and Establishing National Innovation for U.S. Stablecoins Act (GENIUS Act), U.S. Government Publishing Office (govinfo) (US). Publicado em 18 de julho de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Treasury Seeks Public Comment on GENIUS Act Proposed Rulemaking, U.S. Department of the Treasury (US). Publicado em 17 de agosto de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- MiCA – Article 149: Entry into force and application (Interactive Single Rulebook), European Securities and Markets Authority (ESMA) (EU). Acesso em 8 de outubro de 2026
- MiCA – Article 49: Issuance and redeemability of e-money tokens (Interactive Single Rulebook), European Securities and Markets Authority (ESMA) (EU). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Public Statement on the provision of certain crypto-asset services in relation to non-MiCA compliant ARTs and EMTs, European Securities and Markets Authority (ESMA) (EU). Publicado em 17 de janeiro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Resolução BCB nº 521, de 10 de novembro de 2025, Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 10 de novembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Regulamentação da prestação de serviços de ativos virtuais e das prestadoras de serviços de ativos virtuais, Banco Central do Brasil (BR). Publicado em 10 de novembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- USDC & EURC Transparency, Circle. Acesso em 8 de outubro de 2026
- Transparency, Tether. Acesso em 8 de outubro de 2026
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Este artigo é educativo e informativo. Não é recomendação personalizada de compra, venda ou manutenção de nenhum ativo. Criptoativos e ativos tokenizados têm riscos, inclusive de perda total; as regras mudam de um país para outro.