Tokenização e Ativos Reais · Explicador

Por que tokenizar um ativo não elimina o risco

Um token muda a forma de registrar e transferir um ativo. O imóvel, o crédito ou a empresa por trás dele continuam com os mesmos riscos, e a tecnologia ainda pode acrescentar alguns novos.

Editor responsável:
Daniel Ferreira

Publicado em · 8 min de leitura

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Em três pontos

  • A tokenização altera o registro, a transferência e o fracionamento de um ativo, mas não altera o risco econômico do ativo nem a solidez de quem o emite.
  • Relatórios de FSB, IOSCO e OCDE apontam incerteza jurídica sobre o que o token dá ao investidor e liquidez prometida que nem sempre se confirma.
  • A tecnologia acrescenta riscos próprios, como falhas de contrato inteligente, perda de chaves e dependência de custodiantes e fontes de dados.

“Tokenizado” virou sinônimo de moderno, e moderno costuma ser confundido com seguro. Um apartamento dividido em mil tokens, um crédito empresarial registrado em blockchain, uma cota de fundo negociada a qualquer hora: tudo isso soa como evolução. Em parte é. Mas a tecnologia muda a embalagem do investimento, não o conteúdo.

Este texto separa o que a tokenização muda do que ela não muda. As referências são relatórios de organismos internacionais que acompanham o tema: o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB), a Organização Internacional das Comissões de Valores (IOSCO), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Banco de Compensações Internacionais (BIS). Todos foram publicados entre 2024 e 2026.

O que a tokenização muda

O FMI define tokenização como registrar e transferir ativos em um livro-razão digital, amplamente compartilhado e confiável, que pode ser programado (FMI, FinTech Note 2025/001, janeiro de 2025). Dessa definição saem as quatro mudanças reais:

  • Registro. A posse do direito passa a ser anotada em uma rede digital, e não só em um sistema interno de banco, corretora ou escriturador.
  • Transferência. O token pode mudar de mãos de forma mais rápida e, em alguns desenhos, com a entrega do ativo e o pagamento acontecendo ao mesmo tempo.
  • Fracionamento. Um ativo caro pode ser dividido em partes pequenas, o que amplia o acesso.
  • Programação. Regras podem ser embutidas no próprio token por meio de contratos inteligentes (smart contracts), programas que executam ações automaticamente quando certas condições são cumpridas.

Segundo o FMI, isso pode baratear a emissão e a manutenção dos ativos, com menos intermediários, e reduzir custos de negociação. Mas a mesma nota afirma que algumas ineficiências diminuiriam, outras permaneceriam e novas poderiam surgir.

O BIS, em relatório ao G20 de outubro de 2024, trata transações “mais baratas e mais rápidas” como benefícios potenciais, ao lado de custos e riscos que “também precisam ser considerados” (BIS, outubro de 2024). O FSB vai na mesma linha: muitos desses benefícios “ainda não foram comprovados” e podem não ser exclusivos da tokenização (FSB, outubro de 2024).

O que a tokenização não muda

O risco do próprio ativo

Se o imóvel fica vago, o aluguel não entra. Se a empresa devedora quebra, o crédito não é pago. Se o mercado cai, o preço cai. Nada disso depende de o direito estar registrado em papel, em um sistema de banco ou em uma blockchain.

O FSB descreve o ativo tokenizado como ativo de referência, o bem ou direito real que o token representa, e lista esse ativo como uma das três fontes de vulnerabilidade da tokenização, ao lado dos participantes e da tecnologia. No Brasil, a CVM segue a mesma lógica no sentido regulatório: o fato de um ativo ser digital ou estar em blockchain “é irrelevante” para decidir se ele é valor mobiliário (CVM, Parecer de Orientação 40, 2022). O que vale é a essência econômica, e ela inclui o risco.

O risco do emissor e o risco jurídico

Quem compra um token compra, na verdade, um direito contra alguém: o emissor, uma empresa que detém o ativo ou um veículo criado para a operação. Se esse alguém falha, frauda ou some, o token perde a base.

A IOSCO, em relatório final de novembro de 2025, aponta que, nos tokens que representam ativos existentes fora da rede, a variedade de estruturas pode gerar incerteza sobre os direitos e a propriedade do ativo subjacente. Ou seja, o investidor pode ter o token sem entender quais direitos de propriedade ele realmente tem. O relatório acrescenta que há risco jurídico se a propriedade ou as transferências feitas com tokens não forem reconhecidas como o investidor imaginava, e que operadores diferentes tratam como registro oficial ora a blockchain, ora um registro tradicional fora dela (IOSCO, Tokenization of Financial Assets, 2025).

A OCDE é direta: ser dono de um token não significa necessariamente ser dono do ativo subjacente. Em algumas jurisdições, também não está claro qual é a posição do investidor em uma falência ou se ele recupera o ativo quando o custodiante quebra (OCDE, Tokenisation of assets and distributed ledger technologies in financial markets, 2025).

No caso de imóveis no Brasil, esse ponto é concreto: a propriedade se prova pela matrícula no Registro de Imóveis, não por um token. O mapa de quem regula cada parte está em tokenização imobiliária no Brasil: quem regula o quê.

A liquidez

Liquidez é a facilidade de transformar um ativo em dinheiro sem perder muito valor. Um token pode ser transferido em segundos, mas isso não garante que exista alguém disposto a comprá-lo pelo preço que você quer.

O FSB alerta que um token que representa uma fração de um ativo pode dar uma falsa impressão de liquidez farta, embora o ativo de referência seja ilíquido. Em um momento de estresse, uma onda de pedidos de resgate pode forçar o emissor a vender o ativo em mercado pouco líquido e derrubar o preço dos tokens. A IOSCO observa que, nos casos analisados, muitos dos benefícios prometidos, em especial a liquidez no mercado secundário, ainda não estão claramente comprovados. E a OCDE registra que a adoção da tokenização segue escassa, com a maioria das operações em pilotos e ambientes fragmentados.

Na avaliação da redação, quando uma plataforma promete que você pode “sair quando quiser”, vale perguntar quem vai comprar seu token e o que acontece se ninguém quiser.

A avaliação e o preço

Fracionar um imóvel não torna mais fácil saber quanto ele vale. O preço do token depende de uma avaliação do ativo e, muitas vezes, de dados trazidos de fora da rede por serviços chamados oráculos, que alimentam os contratos inteligentes com informações como cotações e eventos.

O FSB aponta que a combinação de contratos e protocolos pode trazer complexidade e opacidade e prejudicar a capacidade do investidor de avaliar a qualidade e o preço dos ativos tokenizados. Também registra que oráculos podem ser alvo de ataques e manipulação. Tokens que representam o mesmo ativo em plataformas diferentes podem ter preços divergentes.

A custódia

Custódia é a guarda de um ativo por alguém responsável por ele. Na tokenização, ela existe em duas camadas: a guarda do token e a guarda do ativo real que dá lastro ao token.

A OCDE destaca o papel de um custodiante confiável que garanta o lastro dos tokens e assegure que um ativo, como um imóvel, seja tokenizado uma única vez, sem ser representado por vários tokens em várias plataformas. A IOSCO lista a perda de chaves privadas entre os riscos operacionais. O BIS, citando o presidente do comitê de pagamentos e infraestruturas de mercado, resume: “os riscos bem conhecidos dos sistemas existentes se aplicam”, incluindo crédito, liquidez, custódia e risco operacional.

Os tipos de carteira e a diferença entre guardar por conta própria ou com uma empresa estão em carteiras de criptomoedas: custodial e não custodial.

Os riscos que a tecnologia acrescenta

Além de não eliminar riscos antigos, a tokenização pode somar riscos novos. A IOSCO cita ataques cibernéticos a nós da rede, congestionamento, vazamento de dados, fragmentação de mercado, falhas (bugs) em contratos inteligentes e perda de chaves privadas. A OCDE acrescenta que o risco de contrato inteligente se soma ao risco operacional de TI, com erros de código e comprometimento de chaves. O FMI menciona riscos de cadeias de contratos interdependentes e de código defeituoso.

Há também efeitos de sistema. O FSB avalia que, pela escala ainda pequena, a tokenização não representa hoje risco relevante à estabilidade financeira, mas pode ampliar vulnerabilidades conhecidas, como descasamento de liquidez e alavancagem, se crescer muito. Em nota de abril de 2026, o FMI afirma que, sem âncoras institucionais e de política adequadas, a tokenização corre o risco de ampliar a instabilidade financeira por meio de velocidade, concentração e fragmentação (FMI, Tokenized Finance, abril de 2026).

Um exemplo para fixar

Imagine, como exercício hipotético, um token que dá direito a uma fração do aluguel de uma sala comercial. Veja o que muda e o que não muda:

Situação A tokenização ajuda?
Registrar quem tem direito a cada fração Sim, pode tornar o registro mais rápido e rastreável
Transferir a fração para outra pessoa Sim, se a plataforma e a lei reconhecerem a transferência
A sala ficar seis meses vazia Não; a renda cai do mesmo jeito
O inquilino deixar de pagar Não; a cobrança segue as regras do contrato de locação
A empresa que estruturou a operação quebrar Não; depende de como o direito foi protegido juridicamente
Encontrar comprador para a sua fração Não necessariamente; depende de existir demanda
Um erro no contrato inteligente travar os pagamentos Esse risco só existe por causa da tecnologia

Perguntas antes de comprar um ativo tokenizado

  • Qual é o ativo de referência e qual é o risco dele, sem a tecnologia?
  • Contra quem é o meu direito, e o que acontece se essa empresa falir?
  • Qual registro vale juridicamente: a blockchain ou um registro tradicional?
  • Quem guarda o ativo real e quem guarda o token?
  • Existe mercado secundário de verdade, com volume, ou só a promessa de um?
  • O contrato inteligente foi auditado, e quem responde se ele falhar?
  • A oferta está sob algum regulador?

Promessas de rentabilidade garantida, pressa para decidir e uso de nomes de órgãos públicos para dar ar oficial são sinais de alerta clássicos. Veja como reconhecê-los em golpes com criptomoedas: como identificar e denunciar. Como em qualquer investimento de risco, é possível perder todo o valor aplicado.

O que levar deste texto

  • A tokenização muda o registro, a transferência, o fracionamento e a programação de um ativo. Ela não muda o risco econômico do ativo nem a solidez de quem o emite.
  • Os relatórios internacionais convergem: os riscos conhecidos continuam valendo, a incerteza jurídica sobre o que o token representa é real e a liquidez prometida nem sempre se confirma.
  • Avalie um ativo tokenizado como você avaliaria o ativo original, e depois some os riscos da tecnologia.

Divulgação: O editor responsável, Daniel Ferreira, atua como corretor de imóveis no Brasil (CRECI-DF 12.668).

Fontes

  1. Tokenization and Financial Market Inefficiencies (FinTech Note 2025/001), International Monetary Fund (IMF). Publicado em 29 de janeiro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  2. The Financial Stability Implications of Tokenisation, Financial Stability Board (FSB). Publicado em 22 de outubro de 2024 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  3. Tokenization of Financial Assets – Final Report (FR/17/25), International Organization of Securities Commissions (IOSCO). Acesso em 8 de outubro de 2026
  4. Tokenisation of assets and distributed ledger technologies in financial markets: potential impediments to market development and policy implications (OECD Business and Finance Policy Papers, No. 75), Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD). Acesso em 8 de outubro de 2026
  5. Report for the G20 on tokenisation highlights the opportunities, risks and future considerations for central banks, Bank for International Settlements (BIS). Publicado em 21 de outubro de 2024 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  6. Tokenized Finance (IMF Note), International Monetary Fund (IMF). Publicado em 2 de abril de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  7. Parecer de Orientação CVM nº 40, de 11 de outubro de 2022 – Os criptoativos e o mercado de valores mobiliários, Comissão de Valores Mobiliários (CVM) (BR). Publicado em 11 de outubro de 2022 · Acesso em 8 de outubro de 2026

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Este artigo é educativo e informativo. Não é recomendação personalizada de compra, venda ou manutenção de nenhum ativo. Criptoativos e ativos tokenizados têm riscos, inclusive de perda total; as regras mudam de um país para outro.

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