Finanças e Economia Digital · Análise
Stablecoins versus moedas digitais de bancos centrais
Uma stablecoin é a promessa de uma empresa privada. Uma moeda digital de banco central é dinheiro do próprio Estado. Entenda o que muda para quem usa, por que os bancos centrais desconfiam das stablecoins e em que pé estão os projetos públicos em outubro de 2026.
- Autoria:
- Redação Token & Tech
- Editor responsável:
- Daniel Ferreira
Publicado em · 9 min de leitura
Também disponível em: English
Em três pontos
- A stablecoin é um passivo de uma empresa privada; a CBDC é um passivo do banco central. Por isso o risco de quem segura cada uma é de natureza diferente.
- Para o BIS, as stablecoins falham nos três testes de um bom sistema monetário: valor único, oferta elástica e integridade.
- Em 2026, o euro digital ainda dependia de lei em negociação, o Drex brasileiro foi redesenhado sem blockchain e os EUA proibiram suas agências de criar uma CBDC.
Pagar com um token no celular pode parecer a mesma coisa, seja ele uma stablecoin ou uma moeda digital emitida por um banco central. Na tela, os dois mostram um saldo em dólar, euro ou real. Por trás, são coisas bem diferentes.
Este texto compara os dois modelos pelo que importa a quem usa: quem emite, quem garante o valor e o que acontece numa crise. Também mostra onde estão, em outubro de 2026, os projetos públicos mais citados no Brasil e na Europa. Se você ainda não conhece o mecanismo das stablecoins, comece por O que são stablecoins e como mantêm seu valor.
Duas formas de dinheiro digital
Uma stablecoin é um criptoativo que tenta manter valor fixo em relação a uma moeda oficial. Quem a emite é uma empresa privada, que recebe dinheiro, guarda reservas e promete devolver o valor de face a quem resgatar.
Uma moeda digital de banco central, conhecida pela sigla em inglês CBDC (central bank digital currency), é dinheiro emitido diretamente pela autoridade monetária, em formato digital. Ela é uma obrigação do próprio banco central, como a cédula na sua carteira.
Há dois tipos de CBDC. A de varejo seria usada por pessoas e empresas no dia a dia, como uma versão digital do dinheiro vivo. A de atacado fica restrita a bancos e infraestruturas do mercado financeiro e serve para liquidar operações entre eles. Liquidar é concluir de fato um pagamento, com a transferência definitiva do dinheiro.
Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), os dois instrumentos diferem em emissor, risco, status legal, forma de transferência e potencial de uso ilícito (FMI, Understanding Stablecoins, 2025). A tabela resume essas diferenças.
| Característica | Stablecoin | CBDC de varejo |
|---|---|---|
| Quem emite | Empresa privada | Banco central |
| De quem é a dívida | Do emissor | Do banco central |
| O que sustenta o valor | Reservas e direito de resgate | O próprio banco central |
| Valor nominal fixo | Buscado, mas pode oscilar no mercado | Sempre o valor de face |
| Onde circula | Sempre em blockchain | Tecnologia escolhida pelo banco central |
| Carteiras sem intermediário | Comuns | Pouco exploradas nos projetos |
Duas linhas pedem explicação. O FMI observa que, ao contrário das CBDCs, as stablecoins nem sempre entregam estabilidade de valor nominal, e que a maioria dos detentores depende de corretoras para vender, onde o preço pode se afastar da paridade. O mesmo relatório lembra que stablecoins podem ficar em carteiras autocustodiadas, uma funcionalidade pouco explorada em CBDCs por exigências de combate à lavagem de dinheiro.
O teste do dinheiro, segundo o BIS
O Banco de Compensações Internacionais (BIS), que reúne bancos centrais, propôs em 2025 três testes para avaliar se uma forma de dinheiro pode sustentar o sistema monetário (BIS, Relatório Econômico Anual 2025).
- Unicidade. Um real tem de valer um real, seja qual for o banco ou o aplicativo. Hoje isso acontece porque os pagamentos entre bancos são liquidados em reservas no banco central.
- Elasticidade. O sistema precisa conseguir fornecer dinheiro na hora e na quantidade em que a economia precisa, inclusive em pagamentos grandes.
- Integridade. O dinheiro precisa resistir a fraude, lavagem e financiamento de atividades ilícitas.
A conclusão do BIS é que as stablecoins têm desempenho fraco nos três. Falham na unicidade porque tokens de emissores diferentes podem ser negociados a preços diferentes e não há liquidação no balanço do banco central. Falham na elasticidade porque o detentor precisa pagar integralmente, adiantado, por cada token, e o balanço do emissor não pode crescer à vontade. E falham na integridade porque funcionam como instrumentos ao portador pseudônimos, que circulam sem que se saiba quem é o dono. Na avaliação do BIS, elas podem ter, no máximo, um papel secundário.
Vale notar quem fala. O BIS representa os bancos centrais, que são parte interessada nessa disputa. Ainda assim, os testes ajudam a entender por que as autoridades tratam o tema como questão de estabilidade, e não só de inovação.
O que os bancos centrais estão fazendo
A pesquisa mais recente do BIS, com dados do fim de 2024, mostra que 85 de 93 bancos centrais, ou 91%, trabalhavam em algum tipo de CBDC (BIS Papers nº 159, agosto de 2025). Os projetos de atacado estavam mais avançados que os de varejo. Nas economias avançadas, 38% dos bancos centrais rodavam pilotos de CBDC de atacado.
No varejo, só três países tinham uma CBDC em funcionamento: Bahamas, Jamaica e Nigéria. Nenhuma nova foi lançada em 2024.
As stablecoins aparecem como motivo explícito. Segundo a mesma pesquisa, mais de um terço dos bancos centrais acelerou o trabalho com CBDC por causa delas e de outros criptoativos. O relatório também registra que o uso de stablecoins para pagamentos fora do ambiente cripto ainda era limitado na maioria dos países, com uso mais amplo relatado só em algumas economias emergentes, sobretudo em remessas.
Na Europa, o caminho de atacado já saiu do papel. Em 21 de setembro de 2026, o Eurosistema colocou em funcionamento o Pontes, solução que permite liquidar em dinheiro de banco central operações de atacado com ativos tokenizados, com implementação completa prevista para 2028 (BCE, 21 de setembro de 2026). Ativos tokenizados são títulos e outros ativos representados como tokens em um registro digital.
Euro digital: onde está o projeto
O euro digital é a CBDC de varejo mais discutida entre as grandes economias. Em outubro de 2025, o Banco Central Europeu (BCE) passou o projeto para uma nova fase, focada em preparação técnica. O banco disse que só decidirá se e quando emitir depois que a legislação for aprovada. Se a lei sair em 2026, o BCE trabalha com piloto a partir de meados de 2027 e possível primeira emissão em 2029. O custo estimado de desenvolvimento é de cerca de 1,3 bilhão de euros até a primeira emissão, e o de operação, de cerca de 320 milhões de euros por ano a partir de 2029 (BCE, 30 de outubro de 2025). A página do piloto fala em 12 meses de testes a partir do segundo semestre de 2027, com 36 prestadores de serviços de pagamento (BCE, piloto do euro digital).
A lei ainda está em negociação. O Conselho da União Europeia fechou sua posição em dezembro de 2025. Ela prevê uso sem internet, alto grau de privacidade e um limite de quanto cada pessoa pode guardar em euro digital, definido pelo BCE dentro de um teto acordado pelo Conselho (Conselho da UE, 19 de dezembro de 2025). O Parlamento Europeu aprovou seu mandato de negociação em julho de 2026. Na atualização de 20 de setembro de 2026, o acompanhamento oficial do Parlamento ainda não registrava acordo, e os limites de saldo não tinham sido discutidos em nível político (Parlamento Europeu, Legislative Train).
O limite de saldo existe por um motivo: evitar que as pessoas tirem dinheiro dos bancos em massa para guardar em euro digital, o que reduziria a capacidade de os bancos emprestarem. É o mesmo tipo de preocupação que os bancos centrais têm com stablecoins.
Drex: o que mudou no projeto brasileiro
O Drex nasceu como a plataforma do Banco Central do Brasil para testar dinheiro e ativos tokenizados em uma rede de registro distribuído (distributed ledger technology, ou DLT, a família de tecnologias a que pertence a blockchain). O piloto teve duas fases. No relatório da primeira, publicado em fevereiro de 2025, o BC concluiu que era necessário “maior aprofundamento” para garantir que a plataforma atendesse às exigências de privacidade e proteção de dados (MundoCoop, março de 2025).
Segundo reportagem da Exame de dezembro de 2025, o BC decidiu desligar a plataforma do piloto, e o presidente Gabriel Galípolo afirmou que a tecnologia testada “não se mostrou viável”. Ele disse que o projeto não foi abandonado e que “hoje existem outras maneiras” de chegar ao objetivo. A reportagem descreve uma nova fase sem blockchain, voltada a facilitar o uso de ativos como garantia em operações de crédito (Exame, 30 de dezembro de 2025).
Até 8 de outubro de 2026, a redação não encontrou comunicado oficial do BC com data de lançamento ou escopo final dessa nova fase. Uma consequência é clara: o Drex, na forma atual, não é uma moeda digital de varejo para o público. Quem anuncia “o real digital chegou” para vender produto ou pedir cadastro deve ser tratado com desconfiança.
Estados Unidos: stablecoin sim, CBDC não
Os EUA tomaram o caminho oposto ao europeu. Uma ordem executiva de 23 de janeiro de 2025 proíbe as agências federais, salvo exigência legal, de criar, emitir ou promover uma CBDC, e manda encerrar planos existentes. A mesma ordem define como política promover stablecoins lastreadas em dólar (Casa Branca, 23 de janeiro de 2025). Meses depois, o país aprovou uma lei federal para stablecoins, tratada em detalhe em Regulação de stablecoins: panorama internacional.
O FMI registra o contraste: os EUA interromperam a exploração de uma CBDC de varejo e o Canadá reduziu o trabalho nessa frente, enquanto China e zona do euro seguem em estágio avançado (FMI, 2025).
Concorrência ou convivência
Para o FMI, os dois podem competir se forem vistos como substitutos próximos. Isso fica mais provável quanto mais as stablecoins forem seguras e integradas ao sistema de pagamentos, por exemplo se os emissores tiverem acesso às contas do banco central. Também podem conviver, cada um em usos diferentes. Uma diferença prática: a stablecoin circula em blockchains públicas e serve para negociar criptoativos, enquanto uma CBDC de varejo não seria, em geral, um ativo usado nesse ambiente.
Há ainda uma questão de soberania. Segundo o FMI, 97% das stablecoins emitidas eram atreladas ao dólar, e o mercado somava cerca de 300 bilhões de dólares em setembro de 2025. Em países com inflação alta ou pouca confiança na moeda local, stablecoins em dólar podem acelerar a substituição de moeda, quando a população passa a usar uma moeda estrangeira no lugar da nacional. Isso enfraquece a política monetária local. Parte do interesse em CBDCs vem dessa preocupação.
Riscos para quem usa cada uma
Os riscos não são os mesmos, e nenhum dos dois modelos é isento.
- Stablecoin. Você depende de uma empresa privada e de suas reservas. O preço pode ficar abaixo da paridade em crises, o emissor pode congelar tokens, e não há garantia de depósito. A perda pode ser total. A comparação entre as duas maiores está em USDT versus USDC: mecanismos, reservas e riscos.
- CBDC. O risco de crédito é o do próprio Estado, o menor possível em moeda nacional. Os riscos citados pelo FMI são outros: operacionais, de integridade, de proteção ao consumidor e de estabilidade financeira se o desenho for ruim. Há também o debate sobre privacidade, já que um banco central passaria a ter um papel direto nos pagamentos do dia a dia. Por isso projetos como o euro digital colocam a privacidade e os limites de saldo no centro da discussão legal.
- Golpes. Os dois temas atraem fraudes. Ofertas de “moeda digital do governo” com rendimento ou cadastro antecipado não têm respaldo oficial. Veja Golpes financeiros digitais: como evitar e como reagir.
O que levar deste texto
- Stablecoin é uma promessa privada de valor fixo; CBDC é dinheiro do banco central. A diferença está em quem deve a você.
- O BIS considera que stablecoins não passam nos testes de unicidade, elasticidade e integridade. É a visão dos bancos centrais, parte interessada, mas explica a postura das autoridades.
- A maior parte do avanço em CBDC está no atacado, entre bancos. No varejo, só três países tinham uma em funcionamento no fim de 2024.
- Em outubro de 2026, o euro digital dependia de lei ainda em negociação, o Drex havia sido redesenhado sem data pública de lançamento e os EUA tinham proibido suas agências de criar uma CBDC.
- Antes de usar qualquer moeda digital, pergunte quem a emite, quem garante o resgate e o que acontece se esse emissor falhar.
Fontes
- Annual Economic Report 2025 – III. The next-generation monetary and financial system, Bank for International Settlements (BIS). Publicado em 29 de junho de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Advancing in tandem – results of the 2024 BIS survey on central bank digital currencies and crypto (BIS Papers No 159), Bank for International Settlements (BIS). Publicado em 22 de agosto de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Understanding Stablecoins (Departmental Paper), International Monetary Fund (IMF). Publicado em 2 de dezembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Eurosystem moving to next phase of digital euro project, European Central Bank (ECB) (EU). Publicado em 30 de outubro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Digital euro pilot, European Central Bank (ECB) (EU). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Single currency: Council agrees position on the digital euro and on strengthening the role of cash, Council of the European Union (EU). Publicado em 19 de dezembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Legislative Train Schedule – Digital euro, European Parliament (EU). Acesso em 8 de outubro de 2026
- Eurosystem brings central bank money to tokenised finance, European Central Bank (ECB) (EU). Publicado em 21 de setembro de 2026 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- O que vai acontecer com o Drex em 2026? Mudanças abrem nova fase do projeto, Exame (Future of Money) (BR). Publicado em 30 de dezembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Banco Central divulga relatório da primeira fase do Piloto Drex e chamada para a segunda etapa, MundoCoop (BR). Publicado em 5 de março de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
- Strengthening American Leadership in Digital Financial Technology (Executive Order), The White House (US). Publicado em 23 de janeiro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Este artigo é educativo e informativo. Não é recomendação personalizada de compra, venda ou manutenção de nenhum ativo. Criptoativos e ativos tokenizados têm riscos, inclusive de perda total; as regras mudam de um país para outro.