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Memecoins: por que existem e quais são os riscos

Memecoins nascem de piadas, personagens e modas da internet e valem o que o mercado quiser pagar. Saiba por que elas se multiplicam e por que o risco de perda é tão alto.

Editor responsável:
Daniel Ferreira

Publicado em · 6 min de leitura

Também disponível em: English

Em três pontos

  • Memecoins são criptoativos inspirados em memes e tendências, com pouca ou nenhuma utilidade, cujo preço depende quase só de demanda e especulação.
  • Criar um token ficou barato e rápido, o que explica a enxurrada de lançamentos; a maioria nunca chega a ser negociada de forma relevante.
  • Reguladores e pesquisas apontam manipulação frequente, como wash trading, pump and dump e rug pull, e nos EUA a SEC entende que quem compra não tem a proteção das leis de valores mobiliários.

Uma moeda com a cara de um cachorro, de um sapo ou de uma celebridade pode subir milhares por cento em dias e perder quase tudo em horas. São as memecoins, criptoativos que nascem de piadas e modas da internet.

Este texto explica o que elas são, por que existem e se multiplicam e quais riscos reguladores e pesquisadores documentam. Ele não avalia nem indica nenhuma moeda. As informações foram conferidas em 8 de outubro de 2026.

O que é uma memecoin

A definição mais objetiva vem da Divisão de Finanças Corporativas da SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos. Em declaração de fevereiro de 2025, a equipe descreve a memecoin como um criptoativo inspirado em memes, personagens, acontecimentos ou tendências da internet, promovido para atrair uma comunidade on-line que compra e negocia o token (SEC, declaração sobre meme coins).

O mesmo texto aponta as características típicas:

  • é comprada sobretudo por diversão, interação social e motivos culturais, como um item colecionável;
  • costuma ter utilidade ou função limitada ou nenhuma;
  • o valor vem principalmente da demanda de mercado e da especulação;
  • tende a ser muito volátil.

O regulador de Nova York, o NYDFS, usa outro nome: moedas baseadas em sentimento. A expressão resume bem o ponto. O preço não se apoia em fluxo de caixa, lastro ou serviço, mas no humor coletivo (NYDFS, alerta ao consumidor).

Por que memecoins existem

Começaram como piada

O exemplo mais citado é o Dogecoin, lançado em 6 de dezembro de 2013 por Billy Markus e Jackson Palmer. Segundo a história publicada no site do próprio projeto, ele foi criado “como uma piada”, porque os dois achavam que o mercado de criptomoedas estava sendo levado a sério demais (dogecoin.com). A brincadeira ganhou comunidade, e a fórmula passou a ser copiada.

Criar um token ficou fácil

Em blockchains com contratos inteligentes, um token é um programa que segue um padrão. No Ethereum, o padrão mais usado é o ERC-20, proposto em 2015 como “uma interface padrão para tokens” (EIP-20). Com um modelo pronto, lançar um token novo vira tarefa de minutos. Se quiser entender a base técnica, veja O que são contratos inteligentes e como funcionam.

Hoje há plataformas que fazem isso sem nenhum conhecimento técnico. O NYDFS alerta que algumas permitem criar uma moeda “em poucos cliques” e que essas plataformas não são licenciadas pelo órgão (NYDFS, alerta ao consumidor).

A escala impressiona. Um estudo publicado no arXiv analisou a plataforma Pump.fun, na rede Solana, no quarto trimestre de 2024: ela respondeu por até 71,1% de todos os tokens criados na rede no período, e menos de 2% desses tokens chegaram às principais bolsas descentralizadas. O autor descreve o quadro como uma estrutura de mercado “altamente especulativa” (Mancino, arXiv).

Atenção, comunidade e aposta

Na avaliação da redação, três motivos explicam a demanda. O primeiro é social: comprar a moeda é participar de uma piada, de uma comunidade ou de uma torcida. O segundo é a aposta: como o preço parte de quase zero, histórias de quem multiplicou o dinheiro circulam muito, e as de quem perdeu, pouco. O terceiro é a atenção: memes se espalham rápido nas redes sociais, e o preço acompanha o barulho.

Esses motivos não tornam a memecoin ilegítima em si. Mas mostram que o valor depende de as pessoas continuarem interessadas, e esse interesse pode desaparecer sem aviso.

Os riscos documentados

Volatilidade extrema e perda total

Sem fluxo de caixa ou lastro, não há referência de “preço justo”. O NYDFS registra que mesmo em plataformas reguladas os preços dessas moedas podem cair muito em pouco tempo (NYDFS, alerta ao consumidor). Uma memecoin pode chegar a valer zero, e a maioria das transações em blockchain não tem estorno.

Concentração nas mãos de poucos

Segundo o NYDFS, essas moedas costumam estar concentradas em poucas pessoas ou grupos ligados ao criador e não são amplamente negociadas (NYDFS, alerta ao consumidor). Quem tem grande parte da oferta pode derrubar o preço vendendo de uma vez. Como avaliar distribuição, travas de venda e emissão de um token está em Tokenomics: como analisar antes de avaliar um projeto.

Crescimento artificial e manipulação

Um estudo de Alberto Maria Mongardini e Alessandro Mei, publicado no arXiv, analisou 34.988 memecoins em quatro redes (Ethereum, BNB Smart Chain, Solana e Base) durante três meses. Entre os tokens que subiram mais de 100%, 82,8% mostravam sinais de crescimento artificial (Mongardini e Mei, arXiv). Os autores identificaram duas técnicas:

  • Wash trading: negociações do criador consigo mesmo, ou com contas combinadas, para simular movimento.
  • Inflação de preço pelo pool de liquidez: compras pequenas e calculadas em pools pouco profundos, que fazem o preço saltar.

Depois dessa fase, segundo o estudo, costumam vir os golpes de saída. Os pesquisadores contaram mais de 17 mil endereços prejudicados, com perdas realizadas acima de US$ 9,3 milhões. A conclusão deles é que os maiores ganhos entre as memecoins de melhor desempenho são, com frequência, resultado de atividade coordenada, e não da dinâmica natural do mercado.

Pump and dump e rug pull

Os dois golpes mais associados às memecoins são o pump and dump, em que um grupo infla o preço com propaganda e vende no pico, e o rug pull (“puxar o tapete”), em que os criadores retiram a liquidez ou vendem tudo e abandonam o projeto. O NYDFS descreve exatamente esse roteiro: criadores ou associados inflam o preço, vendem suas moedas no alto e provocam a queda (NYDFS, alerta ao consumidor).

A CFTC, que regula derivativos nos EUA, lembra que esses esquemas miram moedas novas ou pouco negociadas, que o ciclo pode durar minutos e que quem entra pela propaganda pode perder tudo (CFTC, alerta sobre pump and dump). Como reconhecer e denunciar esses e outros golpes está em Golpes com criptomoedas: como identificar e denunciar.

Proteção jurídica limitada

Na declaração de 2025, a equipe da SEC concluiu que, em geral, a compra e venda de memecoins não envolve oferta de valores mobiliários. Na prática, isso significa que quem compra não conta com a proteção das leis federais de valores mobiliários dos EUA. A própria declaração faz ressalvas: não tem força de lei, não foi aprovada pela comissão, depende dos fatos de cada caso, não vale para produtos que só usam o rótulo de memecoin para escapar da regulação, e fraudes continuam sujeitas a outras autoridades (SEC, declaração sobre meme coins).

No Brasil, o enquadramento de um token depende da função que ele cumpre e de como é oferecido. O panorama está em Regulação de criptoativos no Brasil: quem fiscaliza o quê.

Quem costuma ficar com a perda

O padrão não é exclusivo das memecoins. Um boletim do Banco de Compensações Internacionais (BIS), com dados de plataformas de 2015 a 2022, concluiu que a maioria dos usuários de aplicativos de cripto, em quase todos os países analisados, teve prejuízo com bitcoin. Após os choques de 2022, investidores grandes venderam enquanto os pequenos compravam (BIS, Bulletin 69). O estudo trata de bitcoin, não de memecoins, mas mostra quem tende a entrar tarde em movimentos guiados por euforia.

Sinais de alerta antes de qualquer decisão

  • Promessa de ganho rápido, garantido ou “sem risco”.
  • Contagem regressiva em grupos de mensagens e pedidos para divulgar a moeda.
  • Grande parte da oferta concentrada em poucas carteiras, especialmente do criador.
  • Liquidez pequena, sem trava, que pode ser retirada a qualquer momento.
  • Moeda criada há poucos dias em plataforma sem licença.
  • Notícia de investidor famoso ou parceria com grande empresa sem confirmação oficial.

Se, mesmo assim, você decidir lidar com qualquer criptoativo, use carteira e plataforma que entenda bem e nunca compartilhe a frase-semente. Os cuidados estão em Como proteger a frase-semente de uma carteira.

O que levar deste texto

  • Memecoins são tokens inspirados em memes e tendências, com pouca ou nenhuma utilidade; o preço depende quase só de atenção e especulação.
  • Elas se multiplicam porque criar um token é barato e rápido, mas só uma pequena fração chega a ser negociada de forma relevante.
  • Pesquisas e reguladores registram manipulação frequente, concentração em poucas carteiras e golpes de saída; perda total é um resultado comum, e a proteção jurídica ao comprador é limitada.

Fontes

  1. Staff Statement on Meme Coins, U.S. Securities and Exchange Commission, Division of Corporation Finance. Publicado em 27 de fevereiro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  2. Consumer Alert Regarding Rapidly Proliferating, Sentiment-Based Virtual Currencies, New York State Department of Financial Services. Acesso em 8 de outubro de 2026
  3. Customer Advisory: Beware Virtual Currency Pump-and-Dump Schemes, U.S. Commodity Futures Trading Commission. Acesso em 8 de outubro de 2026
  4. Crypto shocks and retail losses (BIS Bulletin No 69), Bank for International Settlements. Publicado em 20 de fevereiro de 2023 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  5. A Midsummer Meme's Dream: Investigating Market Manipulations in the Meme Coin Ecosystem, arXiv (Mongardini e Mei). Publicado em 16 de abril de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  6. The Memecoin Phenomenon: An In-Depth Study of Solana's Blockchain Trends, arXiv (Mancino). Publicado em 4 de dezembro de 2025 · Acesso em 8 de outubro de 2026
  7. The History of Dogecoin, Dogecoin Foundation (dogecoin.com). Acesso em 8 de outubro de 2026
  8. ERC-20: Token Standard, Ethereum Improvement Proposals. Publicado em 19 de novembro de 2015 · Acesso em 8 de outubro de 2026

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Este artigo é educativo e informativo. Não é recomendação personalizada de compra, venda ou manutenção de nenhum ativo. Criptoativos e ativos tokenizados têm riscos, inclusive de perda total; as regras mudam de um país para outro.

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